Foto - Crédito: Reprodução/site da Prefeitura de Campinas

Foto – Crédito: Reprodução/site da Prefeitura de Campinas
Atualizado em 15 de julho
O projeto “Omodé” celebra a riqueza cultural de tambores e atabaques, com a exposição “Atabaque: Da árvore à escassez da madeira, o couro repousa protegido perpetuado nos terreiros e tablados”, na Estação Cultura, em Campinas. A abertura ocorreu na sexta-feira, 6 de junho de 2025. A mostra ficaria no local até 7 de julho, mas foi prorrogada até dia 21 de julho, com visitações todos os dias, das 8h às 22h.
Idealizada e com curadoria de Jéssica Martins, a exposição é um gesto político e poético que recoloca os tambores rituais no centro da reflexão sobre o racismo religioso, a intolerância, o apagamento cultural e a importância dos povos banto na formação do Brasil. Com apoio do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (PROAC), a mostra circula por cidades do estado.
A mostra propõe uma escuta profunda. O som do tambor – que pulsa em terreiros, rodas e tablados – celebra a fé, mas também ecoa como ferramenta política contra o esquecimento. A exposição evidencia a potência simbólica e espiritual dos tambores nas práticas de matriz africana, ressaltando a resistência e a continuidade das tradições banto, presentes do Congo à Angola, de Moçambique aos quilombos brasileiros.
Durante décadas, tambores e atabaques foram apreendidos, criminalizados e silenciados como parte da repressão às religiões afro-brasileiras. Agora, esses mesmos instrumentos ganham protagonismo: reconhecidos como arquivos vivos de cultura, fé e resistência.
Entre os anos 1920 e 1930, mesmo com o Estado laico já garantido pela Constituição de 1891, religiões como Umbanda e Candomblé eram perseguidas como se fossem crimes. Velas, imagens, indumentárias e tambores foram apreendidos pela polícia e, por quase um século, mantidos como “provas de delito” no acervo do Museu da Polícia do Rio de Janeiro. Só em 2021, após intensa mobilização do movimento “Liberte Nosso Sagrado”, 519 peças foram finalmente reconhecidas como patrimônio e transferidas ao Museu da República.
É nesse contexto que o Projeto Omodé propõe reverência e escuta: o tambor, guardião dos ritos e dos corpos em movimento, é também testemunha dos silenciamentos e das insurgências. Mais do que uma homenagem, a exposição é um convite à reflexão sobre as camadas de resistência que vibram em cada batida, em cada couro tensionado que sobreviveu ao corte, ao fogo e ao silêncio forçado.
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