Foto - crédito: acervo pessoal Daniel Moraes, divulgação
O Museu de Arte Contemporânea de Campinas “José Pancetti” (MACC) recebe, a partir de 25 de abril de 2026, a exposição “Decorpóreo”, individual do artista visual Daniel Moraes, com curadoria de Cecilia Stelini e texto crítico de Flávia Bertinato. A mostra reúne cerca de 60 desenhos e cinco objetos instalativos, produzidos entre 2019 e 2026, e apresenta um panorama de uma pesquisa que desloca a deficiência do campo da representação para o da linguagem. O evento, com entrada gratuita e classificação indicativa livre, ocorrerá no MACC, com abertura no dia 25 de abril, às 11h, e visitação estendida até 13 de junho de 2026.
Em “Decorpóreo”, Daniel Moraes articula elementos de sua biografia para uma abordagem ampla sobre construções culturais e políticas acerca da anatomia humana. O jogo semântico do título sugere obras que tratam do corpóreo e do exercício crítico de deformação e decomposição. Desenhos, objetos escultóricos e pinturas revelam confrontos entre forma e informe, questionando padrões de funcionalidade corporal e borrando fronteiras entre corpo funcional e corpo com deficiência. A exposição se propõe a tensionar as fronteiras entre normalidade, monstruosidade e a experiência do corpo com deficiência, propondo novas leituras sobre corpo, ausência e acessibilidade estética.
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O ponto de partida para a pesquisa de Moraes é o conceito de decorporeidade, desenvolvido durante seu mestrado em Lisboa, que investiga como a experiência do corpo com deficiência estrutura decisões estéticas, materiais e simbólicas. “A minha deficiência afeta e infecta todas as minhas escolhas — de materiais, de imagens, de gestos. Não é um tema, é uma forma de construir a obra”, afirma o artista.
A exposição se materializa em três eixos interligados: Monstruário, Amputos e Suturações, momentos de uma investigação contínua sobre o corpo em transformação. O eixo Monstruário explora a relação entre corpo com deficiência e monstruosidade, não como estigma, mas como campo de disputa simbólica, buscando reconfigurar a associação histórica do corpo com deficiência ao monstruoso. Moraes parte da constatação de que o corpo com deficiência sempre esteve presente na cultura visual, mas frequentemente associado ao monstruoso, e propõe uma apropriação dessa monstruosidade para levá-la a outros lugares.
As figuras apresentadas nos desenhos de Moraes não buscam estabilizar o olhar, mas provocar estranhamento, atração e repulsa, reações que, segundo o artista, revelam mais sobre quem vê do que sobre o que é visto. Contra a lógica da eficiência, a exposição recusa dicotomias simplificadoras como corpo funcional e não funcional, argumentando que existem muitas possibilidades entre eficiência e deficiência. O trabalho confronta a lógica produtivista que define o valor do corpo pela sua utilidade, abrindo espaço para outras formas de existência e experiência.
No núcleo mais recente, Suturações, a ideia de cura é tensionada, onde a cicatriz não é um ponto final, mas permanência, memória e potência. “Eu não quero que esse trauma seja apagado. Quero que ele reverbere. A cicatriz não é algo a ser curado, é algo a ser incorporado”, explica Moraes. Essa incorporação se dá tanto no plano simbólico quanto material, através do gesto, da repetição e da insistência do desenho.
Instrumentos cirúrgicos, objetos cortantes e ataduras aparecem recorrentemente, não como narrativa biográfica direta, mas como dispositivos de tensão. “O cuidado também pode ser violento. Pode ser castrador. Eu trabalho nesse confronto entre cortar e cuidar”, observa o artista, que explora a relação íntima entre corpo e ferramenta — entre o que limita e o que possibilita.
Moraes se recusa a oferecer respostas fechadas em sua obra: “Eu não quero explicar o que aconteceu comigo. Quero gerar questionamentos”. A exposição se constrói como um campo de investigação compartilhado com o público, um espaço onde o desconforto é ativado. “Quanto mais dúvida, quanto mais ruído, melhor. A experiência da deficiência ainda precisa ser expandida para outros lugares”, conclui.
Além da mostra, o projeto inclui atividades educativas, visitas mediadas e recursos de acessibilidade, como audiodescrição e Libras. A proposta é expandir o conceito de acesso, incorporando a deficiência como produtora de conhecimento estético e crítico.
Nascido em 1981, em São Paulo, Daniel Moraes vive e trabalha em Campinas. É mestre em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Sua pesquisa articula arte contemporânea e estudos da deficiência, com trabalhos apresentados no Brasil e no exterior (Portugal, Itália e Coreia do Sul). Atua também como pesquisador e formador em projetos ligados à poética da deficiência.
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