É assim mesmo: complexo. Muitos são os estímulos na vida contemporânea, nem todos, necessariamente, lícitos, se bem que, muitos, vestem a roupagem da licitude e do desejável. É o caso, por exemplo, de bets, redes sociais, pornografia, bebidas, tecnologias pessoais e busca desenfreada do sucesso.
Nesse contexto, tem sido recorrente meu exame sobre a máxima do apóstolo Paulo que diz “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, em que investigo tudo aquilo que eu digo que quero – ou desejo.
A começar, pelo que é lícito: é o que é permitido pelas leis, não proibido. Que é justo e aceitável moralmente. E a continuar, pela que me convém: é o que me é apropriado, correto, proveitoso, justo e aceitável moralmente.
Oras: bets, redes sociais, pornografia, bebidas, tecnologias pessoais, são lícitas, cada qual enquadrada nas suas regras jurídicas, mas são justas e aceitáveis moralmente? É perfeitamente lícito passar horas rolando o feed do Instagram ou TikTok. Mas, convém? Também é lícito comprar um celular de última geração parcelado em 24 vezes. Mas, convém? Redes sociais e IA pessoal também são lícitas. Mas, convêm? Beber socialmente também é considerado lícito. Mas, convém? E buscar o sucesso é lícito e elogiável. Mas, convém, desenfreadamente?
O alerta milenar de Paulo serve como um freio ético contra a perda de autonomia. A conveniência não é apenas de âmbito moral – que é coletivo, e define o que é certo ou errado numa sociedade, mas também ética – que é individual, e pergunta que princípios validam a moral daquela sociedade.
Repito: tudo aquilo me convém? Porque, nesse mundo, não é tão simples definir e cumprir, com firmeza, objetivos e metas tipo o quê, como, onde ou quem eu quero ser – tantas são as variáveis e circunstâncias presentes e posteriores a isso. Já tive certeza de caminhos que, no balanço das ondas do mar, a vida me trouxe outro rumo e, algumas vezes, foi melhor assim.
Por isso, eu, cada vez mais não vivo só das licitudes do mundo, se bem que delas tomo conhecimento e, muitas vezes, a elas sou sujeito. No mais das vezes, entrego-me ao perscrutar próprio que me permite a reflexão, o examinar, o filosofar e o imaginar, meus principais instrumentos de expansão da consciência no meu trabalho espiritual, aprendendo a distinguir o querer do desejo, o melhor do pior e como aconselhar a mim mesmo.
O querer acontece através do que acho que sei de mim, e busca a satisfação de uma necessidade – como alcançar um desenvolvimento profissional que possibilite servir e ganhar melhor. Envolve deliberação, juízo de valor, escolha, responsabilidade. É da ordem da razão, do ego.
Já o desejo é uma força inconsciente que surge de uma falta irredutível do eu, marca da finitude humana: só se deseja aquilo do qual se carece, como se o desejo fosse uma força autônoma, apaixonada, que aponta para as nossas aspirações mais profundas. E que é sujeito, o desejo, sabotar o nosso querer. Uma pessoa pode querer, conscientemente, um relacionamento estável, mas o seu desejo, inconsciente, a empurrar para escolhas descompromissadas, passageiras, desafiando e subvertendo sua ilusão de controle.
Se eu lidar com a máxima de Paulo de forma rígida, isso a transformaria numa prisão moralista, pois “nem tudo me é permitido”. Eu não posso fazer tal coisa porque a regra moral proíbe – e define, assim, o medo do desejo. Se eu agir com firmeza, ela assume a máxima de Paulo em sua potência de liberdade: eu posso fazer isso ou aquilo, mas escolho não fazer “aquilo” porque não condiz com quem já sou ou que me proponho a ser.
É esse o “querer que me desejo”, fundado na firmeza que nos permite habitar o mundo contemporâneo e suas normativas absurdas sem ser colonizados por elas, querendo o que minha consciência escolhe e desejando aquilo que em mim pulsa.
Enquanto Paulo propõe que a razão e a fé filtrem o querer através do “convém”, a psicanálise nos mostra que nem sempre somos mestres em nossa própria casa, quando nos deparamos com a falta estrutural que o nosso íntimo habita. Mas, muitas vezes, o que “não convém” é exatamente aquilo que somos levados a fazer, pois nosso desejo busca uma satisfação que escapa à lógica da conveniência rígida.
Bem… – a rigidez, nasce do medo, da insegurança e da culpa. Acontece de fora pra dentro, quando engolimos dogmas sem reflexão. Costumamos usá-la defensivamente e intolerantemente, negando e bloqueando tudo que não atende às normas que nos impõem ou nos impomos.
A rigidez funciona como um gesso clínico, que imobiliza um membro para protegê-lo, mas, com o tempo, atrofia o músculo – e atrofia o pensar e o sentir.
Já a firmeza, nasce do autoconhecimento, da integridade e da evolução, quando metabolizamos os valores que compreendemos positivamente com o aprendizado da realidade. Aberta, a firmeza dialoga com a vida e com as diferenças. É um valor flexível, que se assemelha à estrutura de uma moita de bambu: bem enraizada, dobra-se ao vento tempestuoso, mas não se quebra.
Desta forma, “o querer que me desejo” funde o querer consciente com o desejo subjetivo, criando uma espécie de reconciliação existencial com a nossa dualidade, integrando nosso movimento no mundo e alinhando nossas verdades. O “querer que me desejo”, assim, se apropria daquilo que nos habita, dá nome à nossa carência e nos faz assumir responsabilidade pelo que desejamos, queremos, sentimos e somos, promovendo uma transformação mais genuína e mostrando que existe um “eu” dentro de nós que a tudo observa, anima e inspira.
Não é por pouco que o “domínio de si” é tido como a verdadeira vitória espiritual, onde o eu e o ego unem desejo e querer em uma só Vontade.
COMO LIDAR COM TUDO ISSO?
Psicanálise, terapia, autoconhecimento – algo assim. Para falar particularmente com o autor, use: 19 99760 0201 [zap] ou [email protected]
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