Tenho pensado numas coisas de relacionamentos humanos que tenho observado nas minhas relações pessoais, no meu trabalho clínico, no meu caminho espiritual, na minha vida como um todo e, ainda, no noticiário diário que acompanho sobre o Brasil e o mundo.
O centro do meu pensar está no fato de que em muitas relações – com personagens como amigos, colegas, patrão, líder, liderados, irmãos, cônjuges, enfim… – tem alguém que só fica satisfeito com um “sim” como resposta a uma demanda, querendo ser atendido ou obedecido sem questionamentos. E, do outro lado da relação, tem alguém que, por seus diversos motivos, só sabe ou consegue dizer “sim” a uma demanda, sem se fazer valer como pessoa autônoma, fazendo disto um modo de ser e viver designado como “people-pleasing” – termo que define alguém querendo agradar a todos o tempo todo, em busca de aprovação, pertencimento e reconhecimento.
O people-pleasing – ao qual de agora em diante vou me referir apenas como Agradador, e a pessoa que não aceita ser contrariada – a qual de agora em diante vou me referir apenas como “o Outro”, se alimentam mutuamente, formando um enrosco de dependência psicológica perfeitamente entrelaçado. O Agradador tem um medo profundo de rejeição ou conflito. E o Outro, quando se depara com um “não” enxerga a recusa como afronta pessoal ou quebra de controle, reagindo com raiva, agressividade ou birra.
Na psicanálise, o comportamento do Agradador é entendido como um sintoma estrutural pra proteger-se de angústias e carências e, assim, ser aceito e se autopreservar. Esse modo de ser e funcionar vem da sua incapacidade de identificar o que quer ou quem realmente é. Isso o leva a um estado de ansiedade constante pra tentar preencher as expectativas alheias, levando-o a assumir um excesso de compromissos e tarefas.
O Agradador, desta forma, vive em uma prisão neurótica onde ele usa sua própria anulação pra aplacar sua angústia de rejeição e suas faltas constituintes como pessoa., alimentando uma forma de promiscuidade afetiva que corrói sua autenticidade. Ao dizer “sim” pra tudo e todos, o Agradador se torna infiel a si mesmo e promiscui seus sentimentos e sua verdade. Com o acúmulo de “sims” indesejados e o esgotamento de sustentar um personagem bonzinho, se torna ressentido com aqueles que ele mesmo tenta agradar.
E o Outro… – bem, ele está mergulhado nas águas sujas do narcisismo patológico, fixado em estágios primitivos do seu desenvolvimento emocional. A necessidade constante de bajulação, obediência e assentimento escondem, na verdade, um ego extremamente fragilizado, que não desenvolveu a capacidade de convivência com outros modos de ver a realidade. Seu autoritarismo funciona como uma armadura. Por fora, a pessoa projeta uma imagem de extrema autoconfiança. Por dentro, há um medo profundo de rejeição e insignificância.
Daí pra uma epidemia de adoecimento mental e emocional – tanto pro Agradador quanto pro Outro, não é preciso dar mais nem um passo. Transtornos de ansiedade… depressivos… de personalidade…traumas… estresse., síndromes de Burnout… e psicossomatizações várias vem como parte do pacote.
Nesse contexto todo, cabe a cada um o seu bocado de evolução. Sempre e sempre é bom lembrar que às vezes estamos em um ou outro papel. Às vezes somos o Agradador, às vezes somos o Outro e às vezes estamos em papéis mais fiéis ao melhor de nós mesmos. A ambos, reconhecer a necessidade de mudança é o primeiro passo pra romper com o ciclo de abuso.
O Agradador pode aprender a suportar o próprio mal-estar de não ser aceito ou validado pelo Outro, desinvestindo sua energia da busca do pertencimento a qualquer custo. Pra isso, é necessário aceitar psiquicamente que alguém poderá se frustrar com o seu não, pois ele não é responsável por regular as emoções de adultos bem crescidinho – inclusive considerando o que diz o Pequeno Príncipe sobre o cativar. Nesse processo, pode aprender a se blindar emocionalmente contra desaprovações ou cara feia. É preciso coragem pra mudar e entender que não ser aceito por alguém faz parte da vida e não diminui o seu valor – mesmo isso implicando em alguma solidão. Se não mostrar seu eu real — com suas falhas, limites e opiniões divergentes -, as pessoas ao redor acabam se relacionando com uma máscara, e não com quem se é realmente.
Por outro lado, o Outro, pra melhorar a capacidade de ouvir “não”, precisa desenvolver a autossuficiência emocional, e parar de depender do outro pra se sentir mais forte e potente, entendendo que quando alguém diz “não” a um pleito seu geralmente ele está dizendo um “sim” aos próprios limites, tempo ou valores, e não o rejeitando ou desrespeitando. Se ele não aceita um “não” a uma demanda sua, essa demanda era uma exigência disfarçada. Ponderemos!
Pra ambos, buscar ajuda terapêutica especializada pode ser de bom tom. Comportamentos abusivos e agradadores geralmente estão enraizados em padrões profundos de distorção cognitiva e de regulação emocional deficitária, que merecem ser esmiuçados pra poder migrar dessas condições pra um lugar de partilha autêntica, onde compartilhar com o outro seja generosidade, e não vampirismo ou autoafirmação.
Desenvolver tolerância ao desconforto e saber absorver uma recusa pode ser um bem à nossa evolução. Ser quem realmente somos implica aceitarmos que algumas pessoas podem não gostar do nosso jeito autêntico de ser – e tudo bem. A busca da fidelidade a si mesmo exige descobrir quem realmente somos e o que realmente queremos na vida e que nos faz sentido.
Eu próprio já venho experimentando dizer alguns “nãos” a alguns amigos e outras pessoas, e pude ver a imensa incompetência de todos eles pra ouvir um “não” – mas eu reconheço que também não sou muito bom nisso, ainda. Vejo que prender a dizer “não”, e a ouvir um “não”, pode ser libertador.
Com isso também estaremos nos preparando pra poder dizer “sim” às muito boas questões que a vida nos propuser. E isso tudo, inevitavelmente, me faz lembrar de um trecho da música “Brincar de Viver”, de Guilherme Arantes, “imortalizada” por Maria Bethânia em 1983: “Ninguém é o centro do Universo.”
COMO LIDAR COM TUDO ISSO?
Psicanálise, terapia, autoconhecimento – algo assim. Para falar particularmente com o autor, use: 19 99760 0201 [zap] ou [email protected]
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