Foto - a médica psiquiatra Maria Inês Quintana e sua avatar digital na Unimed Campinas / Campinas.com.br

Bem-estar

Projeto ExtensIA permite que médica psiquiatra com ELA continue atividades profissionais por meio da tecnologia

18 de agosto de 2026

Avatar digital alimentado por Inteligência Artificial foi treinado para reproduzir a voz, a forma de comunicação e a produção científica da psiquiatra Maria Inês Quintana

A tecnologia está permitindo que a médica psiquiatra e professora Maria Inês Quintana continue participando de atividades acadêmicas, ministrando palestras, lecionando e concedendo entrevistas mesmo após a perda total dos movimentos corporais provocada pela Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Diagnosticada com a doença neurodegenerativa em 2023, ela mantém preservadas as funções cognitivas e o movimento dos olhos, recurso que passou a utilizar para se comunicar e desenvolver suas atividades profissionais.

O projeto, chamado ExtensIA, foi desenvolvido pela Fundação Unimed, mantenedora da Faculdade Unimed, em parceria com a WorkAI (startup multissetorial especializada em colaboradores virtuais autônomos com inteligência artificial humanizada), com apoio da Unimed Campinas, Unimed-BH e Seguros Unimed, e prevê aproximadamente R$ 5 milhões em investimentos.

A iniciativa, que concluiu a primeira fase, foi apresentada na Unimed Campinas na segunda-feira, 17 de agosto de 2026, com a presença da médica. Nesta etapa, foi desenvolvido um avatar digital treinado por meio da IA a partir da voz, da forma de comunicação e da produção científica da médica. Apenas por meio do movimento dos olhos, a médica consegue se comunicar, elaborar suas aulas e atividades acadêmicas.

Maria Inês é professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed e uma das principais especialistas brasileiras e referência em transtorno de personalidade borderline. Com o avanço da ELA e a perda progressiva dos movimentos, sua rotina profissional foi profundamente afetada. A tecnologia assistiva, porém, possibilitou que ela retomasse as atividades.

“A tecnologia devolveu a possibilidade de continuar ensinando, compartilhando conhecimento e participando da vida acadêmica. Hoje consigo me comunicar novamente e manter atividades profissionais mesmo diante das limitações físicas. Posso afirmar que a inteligência artificial salvou minha vida”, afirma Maria Inês Quintana.

Mais sobre o ExtensIA

O ExtensIA foi estruturado em três fases. A primeira foi a criação do avatar digital. Assim, a especialista conseguiu voltar a dar aulas, palestras e entrevistas com autonomia para se comunicar. “O que a gente tinha de áudio é o que a gente tinha de áudio, já que ela não fala mais. Então, se não fosse possível fazer a clonagem com o que a gente tinha de áudio, a gente teria que criar a voz do zero, sintetizada. Mas a partir do esforço dela, do esforço da família, a gente conseguiu reunir um acervo de áudios, um acervo de vídeos e um acervo de imagens, que possibilitaram um clone muito realista dela. Mas com certeza, se a gente tiver outras pessoas com outras comorbidades que não são tão severas como a dela, a gente consegue fazer outras coisas e talvez até mais rápidas”, explica Eduardo Barros, CEO da WorkAI.

A segunda fase, que será a resposta em tempo real, deve ser ainda mais desafiadora para a tecnologia e um recurso inédito para esta aplicação, segundo o profissional. E a terceira fase vai integrar a ferramenta aos sistemas educacionais da Faculdade Unimed, utilizando agentes de inteligência artificial em atividades como organização de grades curriculares, análise de ementas e apoio à gestão acadêmica.

A supervisão e a validação dos conteúdos permanecem sob responsabilidade da médica, que mantém o controle intelectual e decisório sobre todo o processo.

Para o professor Fábio Gastal, psiquiatra e diretor acadêmico da Faculdade Unimed, o projeto reúne ciência, tecnologia e cuidado com as pessoas. “A iniciativa apresenta uma nova forma de compreender, preservar e compartilhar o conhecimento humano, mesmo diante das limitações impostas por doenças irreversíveis. Queremos que esse estudo possa mudar a realidade não apenas da Dra. Maria Inês, mas de tantas outras pessoas do país e do mundo”, afirma.

O presidente da Unimed Campinas, Gerson Muraro Laurito, também destaca a importância desta tecnologia para a sociedade. “Uma reflexão em relação à vida é o legado que ela deixa e que nós estamos possibilitando que isso aconteça. Nós somos uma empresa de saúde, nós cuidamos da saúde física e mental das pessoas. Então, estar aqui hoje acolhendo a Dra. Maria Inês, trazendo esse projeto para que todos tenham conhecimento dele, o que significa para ela enquanto pessoa em termos de qualidade humana e de acolhida… E aquilo que pode se ter para o futuro, porque nós estamos lidando com uma pessoa que generosamente está se propondo a fazer isso. Imagine o quanto isso tem de representação para a vida dela. Ao mesmo tempo que, para nós, enquanto cooperativa, enquanto operadora de saúde, queremos também deixar uma reflexão e deixar também capacitação técnica para que outras pessoas, outros pacientes acometidos de situações como a dela ou similares à dela, possam fazer uso dessa tecnologia. Então, olhando para o presente, pensando no futuro, isso é extremamente importante”, comentou.

Sobre a participação da Unimed Campinas no projeto, o presidente destacou: “Nossos valores compreendem, em especial, inovação e cooperação. É o que estamos fazendo aqui. Então, dentro do espírito de cooperar junto com as outras empresas, junto com as outras cooperativas, a Unimed BH, a Seguros Unimed, nós estamos trazendo isso como um olhar do presente pro futuro, no sentido de aperfeiçoamento dessas atividades. Então, isso para nós é extremamente importante e estar totalmente engajado dentro daquilo que está nos valores da Unimed Campinas.”

Projeto escalável

A proposta do ExtensIA é que a tecnologia possa ser aplicada também a profissionais de diferentes áreas, como medicina, direito, educação, pesquisa e gestão, que tenham limitações motoras severas, mas mantenham suas capacidades cognitivas preservadas.

A iniciativa busca demonstrar que uma deficiência física não precisa representar o fim da produção intelectual e da atuação profissional. Com previsão de ampliação gradual nos próximos meses, o projeto pretende consolidar o uso da inteligência artificial assistiva como ferramenta de inclusão, autonomia e preservação do conhecimento especializado.

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