Foto - a médica psiquiatra Maria Inês Quintana e sua avatar digital na Unimed Campinas / Campinas.com.br
A tecnologia está permitindo que a médica psiquiatra e professora Maria Inês Quintana continue participando de atividades acadêmicas, ministrando palestras, lecionando e concedendo entrevistas mesmo após a perda total dos movimentos corporais provocada pela Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Diagnosticada com a doença neurodegenerativa em 2023, ela mantém preservadas as funções cognitivas e o movimento dos olhos, recurso que passou a utilizar para se comunicar e desenvolver suas atividades profissionais.
O projeto, chamado ExtensIA, foi desenvolvido pela Fundação Unimed, mantenedora da Faculdade Unimed, em parceria com a WorkAI (startup multissetorial especializada em colaboradores virtuais autônomos com inteligência artificial humanizada), com apoio da Unimed Campinas, Unimed-BH e Seguros Unimed, e prevê aproximadamente R$ 5 milhões em investimentos.
A iniciativa, que concluiu a primeira fase, foi apresentada na Unimed Campinas na segunda-feira, 17 de agosto de 2026, com a presença da médica. Nesta etapa, foi desenvolvido um avatar digital treinado por meio da IA a partir da voz, da forma de comunicação e da produção científica da médica. Apenas por meio do movimento dos olhos, a médica consegue se comunicar, elaborar suas aulas e atividades acadêmicas.
Maria Inês é professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed e uma das principais especialistas brasileiras e referência em transtorno de personalidade borderline. Com o avanço da ELA e a perda progressiva dos movimentos, sua rotina profissional foi profundamente afetada. A tecnologia assistiva, porém, possibilitou que ela retomasse as atividades.
“A tecnologia devolveu a possibilidade de continuar ensinando, compartilhando conhecimento e participando da vida acadêmica. Hoje consigo me comunicar novamente e manter atividades profissionais mesmo diante das limitações físicas. Posso afirmar que a inteligência artificial salvou minha vida”, afirma Maria Inês Quintana.
Mais sobre o ExtensIA
O ExtensIA foi estruturado em três fases. A primeira foi a criação do avatar digital. Assim, a especialista conseguiu voltar a dar aulas, palestras e entrevistas com autonomia para se comunicar. “O que a gente tinha de áudio é o que a gente tinha de áudio, já que ela não fala mais. Então, se não fosse possível fazer a clonagem com o que a gente tinha de áudio, a gente teria que criar a voz do zero, sintetizada. Mas a partir do esforço dela, do esforço da família, a gente conseguiu reunir um acervo de áudios, um acervo de vídeos e um acervo de imagens, que possibilitaram um clone muito realista dela. Mas com certeza, se a gente tiver outras pessoas com outras comorbidades que não são tão severas como a dela, a gente consegue fazer outras coisas e talvez até mais rápidas”, explica Eduardo Barros, CEO da WorkAI.
A segunda fase, que será a resposta em tempo real, deve ser ainda mais desafiadora para a tecnologia e um recurso inédito para esta aplicação, segundo o profissional. E a terceira fase vai integrar a ferramenta aos sistemas educacionais da Faculdade Unimed, utilizando agentes de inteligência artificial em atividades como organização de grades curriculares, análise de ementas e apoio à gestão acadêmica.
A supervisão e a validação dos conteúdos permanecem sob responsabilidade da médica, que mantém o controle intelectual e decisório sobre todo o processo.
Para o professor Fábio Gastal, psiquiatra e diretor acadêmico da Faculdade Unimed, o projeto reúne ciência, tecnologia e cuidado com as pessoas. “A iniciativa apresenta uma nova forma de compreender, preservar e compartilhar o conhecimento humano, mesmo diante das limitações impostas por doenças irreversíveis. Queremos que esse estudo possa mudar a realidade não apenas da Dra. Maria Inês, mas de tantas outras pessoas do país e do mundo”, afirma.
O presidente da Unimed Campinas, Gerson Muraro Laurito, também destaca a importância desta tecnologia para a sociedade. “Uma reflexão em relação à vida é o legado que ela deixa e que nós estamos possibilitando que isso aconteça. Nós somos uma empresa de saúde, nós cuidamos da saúde física e mental das pessoas. Então, estar aqui hoje acolhendo a Dra. Maria Inês, trazendo esse projeto para que todos tenham conhecimento dele, o que significa para ela enquanto pessoa em termos de qualidade humana e de acolhida… E aquilo que pode se ter para o futuro, porque nós estamos lidando com uma pessoa que generosamente está se propondo a fazer isso. Imagine o quanto isso tem de representação para a vida dela. Ao mesmo tempo que, para nós, enquanto cooperativa, enquanto operadora de saúde, queremos também deixar uma reflexão e deixar também capacitação técnica para que outras pessoas, outros pacientes acometidos de situações como a dela ou similares à dela, possam fazer uso dessa tecnologia. Então, olhando para o presente, pensando no futuro, isso é extremamente importante”, comentou.
Sobre a participação da Unimed Campinas no projeto, o presidente destacou: “Nossos valores compreendem, em especial, inovação e cooperação. É o que estamos fazendo aqui. Então, dentro do espírito de cooperar junto com as outras empresas, junto com as outras cooperativas, a Unimed BH, a Seguros Unimed, nós estamos trazendo isso como um olhar do presente pro futuro, no sentido de aperfeiçoamento dessas atividades. Então, isso para nós é extremamente importante e estar totalmente engajado dentro daquilo que está nos valores da Unimed Campinas.”
Projeto escalável
A proposta do ExtensIA é que a tecnologia possa ser aplicada também a profissionais de diferentes áreas, como medicina, direito, educação, pesquisa e gestão, que tenham limitações motoras severas, mas mantenham suas capacidades cognitivas preservadas.
A iniciativa busca demonstrar que uma deficiência física não precisa representar o fim da produção intelectual e da atuação profissional. Com previsão de ampliação gradual nos próximos meses, o projeto pretende consolidar o uso da inteligência artificial assistiva como ferramenta de inclusão, autonomia e preservação do conhecimento especializado.
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