Foto – cena de “Campada Maria”
O cinema do interior de São Paulo tem a oportunidade de mostrar toda sua diversidade, originalidade e criatividade neste mês de agosto na “Mostra Filmes do Interior”, programação no Sesc Campinas, que foi elaborada em parceria com o ICine, o Fórum de Cinema do Interior Paulista.
As exibições ocorrem nas próximas terças-feiras do mês, dias 16, 23 e 30 de agosto, sempre às 19h, com entrada gratuita. Após as sessões os realizadores conversam com o público sobre os bastidores de filmagem, os processos de criação e os desafios da produção. Na quarta-feira, dia 31, também terá a exibição de três curtas.
Os filmes
“São Ateu”
Uma comédia provocadora, com mistura de fantasia, ficção científica e crítica social, dá inicio ao programa e realiza sua estreia na cidade de Campinas. “São Ateu”, longa-metragem de Hiro Ishikawa, diretor premiado em festivais brasileiros por “Em Flor” (2007), “Assassino do Bem” (2010) e “A Plebe É Rude” (2016), expõe as transformações, pelo acaso, da vida de Dido, um coletor de dados de hidrômetros caseiros cuja obsessão é criar uma fórmula matemática para ganhar na loteria e ficar rico.
A mania intensifica, tornando insuportável a convivência com a esposa e a filha. Até que, cansado com os infortúnios de sua criação, a humanidade má, Deus abandona a missão e se aposenta. Deixa os cuidados do mundo a um novo profeta, Dido, o “São Ateu”, agora poderoso, mas assediado pelo Diabo e pelas Religiões. E quem faz o papel de Deus é Paulo Cesar Pereio, em atuação sarcástica e inspiradora.
“Tento mostrar no filme um mundo paradoxal, quase sem sentido, onde a fé e o poder se combinam de maneira divertida e trágica, o que nos leva a uma estranha sensação lúdica de viver num mundo onde tudo é possível, apesar de todas as impossibilidade.” Destaca o diretor, que levou ao filme as influências punk da juventude, provocação, ousadia, polêmica. “Acho que tem uma brincadeira com o protagonista, de a comédia vir do heroi mais se dar mal do que bem. Ele quer utilizar dos seus privilégios, mas em um mundo sem Deus, ser seu profeta não é muito importante.”
“Campada Maria”
Já no dia 23 é a vez de “Campada Maria” apresentar ao público a realidade precária de uma sociedade rural do continente africano. O diretor Danilo Dias de Freitas e equipe técnica deixaram suas vidas no Brasil e foram até o Vilarejo de Campada Maria, no norte da Guiné-Bissau, para registrar os impactos sociais, culturais, econômicos e políticos com a criação de um novo sistema de irrigação da horta comunitária, base de subsistência e comércio do povoado.
Pesquisadores brasileiros e guineenses, através do programa PROÁFRICA, cooperação científica entre o Brasil e países africanos, concebem uma infraestrutura tecnológica de bomba de sucção de água de poço artesiano, de inversor, de painéis solares e da construção da torre para a caixa d’água. O filme capta a impressão que a nova dinâmica do real incide ao movimento da comunidade.
“Eu fui com a câmera, a equipe, eu e mais três. Não conhecia as pessoas, não conhecia o lugar, não sabia o que ia encontrar, a não ser o que eu tinha lido em dados, em História, em textos… Fazer da câmera uma observadora em algumas situações e participante em outras, através das pessoas de Campada Maria, foi uma forma que encontrei para dizer: Olha! Eu, aqui. Não tenho nenhuma pretensão de reportar essa realidade no sentido de um índice de verdade. No entanto, estou imediatamente de encontro a essa realidade. Embora eu queira fazer um filme realista, eu tenho limites muito claros. Não se trata meramente da reprodução mecânica da realidade, mas de criação, como toda arte.” Danilo resume o estatuto ético e estético do filme.
O professor do curso de Midialogia da Unicamp, Gilberto Sobrinho, aponta para o caráter humanista do filme: “Campada Maria é um documentário de caráter social, bastante evidente. Há a preocupação da câmera em captar objetos, situações, arquitetura, o modo de vida, o movimento da paisagem humana, e, dentro desse movimento de observação, um olhar para as pessoas. As questões de gênero estão presentes também. Há uma fala de uma liderança que chega a nomear, nas minhas palavras como “escravidão de gênero”. A Fina, uma liderança comunitária, uma pessoa mais velha, fala sobre uma escravização de homens sobre mulheres. Achei muito interessante porque isso dá conta de um processo muito importante revelado pelo documentário que é um modo de vida não-idealizado e que tensiona em alguns momentos.”
“Inscrições do Tempo no Corpo Presente”
A última sessão de longas-metragens da Mostra Filmes do Interior, no dia 30 de agosto, fica por conta do documentário autobiográfico “Inscrições do Tempo no Corpo Presente”, da diretora Kit Menezes, em que também exerce a função de atriz e performance. Memórias, traumas, cicatrizes, carências, fantasias, silêncios.O filme aborda as marcas do tempo na vida da autora em decorrência de uma morte trágica na família.
“O filme começa com a cena em que eu me desenterro. Eu costumo dizer que esse é um filme sobre o silêncio. O tema é o silêncio que soterrou durante décadas possibilidades de lidar com essa memória, que nem existia, ela foi organizada a partir desse processo de visitar o passado. Então, é uma pesquisa arqueológica, se é que posso chamar assim. Não é possível sair ileso desse processo.”
A memória de Kit solicita uma abordagem durante décadas de hiato. Até que, enfim, ela concebe a intenção em filme. Durante o processo de filmagem, no entanto, descobre que o próprio filme descortina tabus, convoca investigações, outras memórias, fantasias, criações. “O filme é muito intuitivo. Ele é um filme-dispositivo, que vai se construindo à medida em que as coisas vão acontecendo. O filme se propõe a trazer essa opacidade com relação aos fatos, o silêncio que vai se instaurando em camadas nas relações, na falta. E ele foi acontecendo também nas imagens de acervo.”
Kit resume sua maneira de ver o cinema, sua maneira de lidar com o cinema, sua maneira de fazer-se através do cinema: “Eu sou uma realizadora que fez escola na videoarte. Então, meu trabalho com cinema e video sempre se deu por essa via, da experimentação, do estranho. Interessa-me mais a imagem que me dá outra coisa além da representação do real. Também me interessa o tempo da imagem na cena”
A Mostra Filmes do Interior ainda traz uma programação de curtas-metragens dirigidos por mulheres. Os filmes “Haitianas”, de Fernanda Viana, “Ser Lua e o Caçador de Estrelas”, de Rafaela Moreira Repasch, e “A Mulher que Diminuía”, de Laura Poli Mariucio, serão exibidos no dia 31 de agosto, quarta-feira, a partir das 19h.
Programação
16/08
“São Ateu”
Direção: Hiro Ishikawa
Duração: 71 minutos
Sinopse: As transformações, pelo acaso, da Vida de Dido, um coletor de dados de hidrômetros caseiros cuja obsessão é criar uma fórmula matemática para ganhar na loteria e ficar rico. A mania intensifica, tornando insuportável a convivência com a esposa e a filha. Até que, cansado com os infortúnios de sua criação, a humanidade má, Deus abandona a missão e se aposenta. Deixa os cuidados do mundo a um novo profeta, Dido, o “São Ateu”, agora poderoso, mas assediado pelo Diabo e pelas Religiões. E quem faz o papel de Deus é Paulo Cesar Pereio, em atuação sarcástica e inspiradora.
23/08
“Campada Maria”
Direção: Danilo Dias de Freiras
Duração: 104 minutos
Sinopse: O documentário apresenta a realidade precária de uma sociedade rural do continente africano, o vilarejo de Campada Maria, no norte da Guiné-Bissau. Registra os impactos sociais, culturais, econômicos e políticos com a criação de um novo sistema de irrigação da horta comunitária, base de subsistência e comércio do povoado. Pesquisadores brasileiros e guineenses, através do programa PROÁFRICA, cooperação científica entre o Brasil e países africanos, concebem uma infraestrutura tecnológica de bomba de sucção de água de poço artesiano, de inversor, de painéis solares e da construção da torre para a caixa d’água. O filme capta a impressão que a nova dinâmica do real incide ao movimento da comunidade.
Dia 23 de agosto, às 19 horas, no SESC-Campinas.
Entrada gratuita.
30/08
“Inscrições do Tempo no Corpo Presente”
Direção: Kit Menezes
Duração: 75 minutos
Sinopse: Documentário autobiográfico da diretora Kit Menezes, em que também exerce a função de atriz e performance apresenta memórias, traumas, cicatrizes, carências, fantasias, silêncios… O filme aborda as marcas do tempo na vida da autora em decorrência de uma morte trágica na família.
Dia 30 de agosto, às 19 horas, no SESC-Campinas.
Entrada gratuita.
31/08
“Haitianas”
Direção: Fernanda Viana
Duração: 15 minutos.
Sinopse: Marie, Norelia e Chantal, haitianas que vivem em Campinas, contam-nos e cantam sobre suas vidas.
“Ser Lua e o Caçador de Estrelas”
Direção: Rafaela Moreira Repasch
Duração: 4 minutos
Sinopse: Um menino mora numa casa no alto da colina, perto do lago e das estrelas. Morava com sua mãe, mas hoje mora com a saudade.
“A Mulher que Diminuía”
Às 19 horas, no SESC-Campinas. Entrada gratuita.
Direção: Laura Poli Mariucio
Duração: 13 minutos
Sinopose: Com um casamento arranjado pelos pais, a jovem Isaura começa a se envolver com André, um rapaz de sua vila.
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