Pensar Psicanalítico

A doce e triste morte de um passarinho

por Vagner Couto
Publicado em 4 de agosto de 2026

 

 

Recebi pelo zap a seguinte mensagem de uma amiga: “Não sei como vc vai receber essas minhas palavras, mas estou esperando o conto que vc vai escrever sobre a passagem da sua irmã. Tenho pensado bastante nisso.”

Soltei um “tá!” como resposta, e fiquei sentindo.

– “Parece que ele está pronto em algum lugar… coisa misteriosa” – disse ela.

– “Vou me abrir pra ele” – respondi. E cá estou, a contar.

Faz uns dias que estou nisso, processando e elaborando uma tristeza: uma irmã muito querida a mim – a número 4 de 7 irmãos, morreu há algumas semanas. Sempre a considerei um ser especial, excepcional, termo que significa algo ou alguém que foge do padrão comum, destacando-se por ser raro, extraordinário, dotado de qualidade superior. Assim era ela, espiritualmente falando.

Excepcional, também, é um termo ainda cabível pra se referir a pessoas com deficiências físicas e/ou intelectuais, com atrasos do desenvolvimento. Neurologicamente, isso resulta de alterações biológicas estruturais e funcionais no cérebro, ligadas principalmente a falhas de comunicação do sistema nervoso central que têm, como causas comuns, problemas nos genes ou nos cromossomos, infecções na gravidez ou falta de oxigênio no nascimento – que, pelo que consta, foi o caso dela.

Minha irmã – Nilva Elisabete Couto, nasceu de parto normal, mas desde o nascimento mostrou-se frágil, revelando traços de atraso psicomotor. Quando bebê, seu caso foi inicialmente diagnosticado como “paralisia infantil”, e isso foi fato: só andou e falou depois dos seis anos de idade. Literalmente paralisada também mentalmente, não avançou com seu desenvolvimento intelectual e cognitivo para além dos três ou cinco anos de idade, permanecendo, qual numa fábula maravilhosa de Esopo ou La Fontaine, eternamente na infância.

Psiquiatricamente falando, outro diagnóstico, mais adiante, imputou-lhe o termo “oligofrenia” (do grego “oligo” – pouco, e “frenia”, mente) – que, simplificadamente, significa “pouca presença da mente”, ou atraso mental, ou desenvolvimento parcial da mente e da inteligência. Com tudo isso quanto ao seu corpo e às limitações inerentes a tais diagnósticos, tenho pra mim que ela, espiritualmente, veio íntegra, inteira, mas aprisionada numa gaiola com limitações de expressão e escolha, somente, pois ela me parecia capaz de sentir a vida – e isto eu pude comprovar ao longo do tempo com as suas transformações.

Não tinha habilidades numéricas e não foi alfabetizada, não sendo inserida no nosso mundo de códigos e de significantes e significados. Desenhava cópias do a,e,i,o,u infinitamente, garatujas, arremedos de linguagem, uma tentativa falha e infrutífera de inclusão à linguagem formal de comunicação. Mesmo assim, ela sabia, misteriosamente (pois ninguém sabia explicar como ela os aprendeu), fazer a Ave Maria e o Pai Nosso, e sempre que pedíamos ela cantava versos da canção “Lacinhos Cor de Rosa”, de Celly Campello, gravada em 1959, que, entre outras coisas, dizia: “Um sapatinho eu vou/ Com um laço cor de rosa enfeitar/ E perto dele eu vou/ Andar devagarinho e o broto conquistar.”

Sinto que, na sua condição, ela não desenvolveu ou aprendeu sobre emoções como a raiva e o medo, e nada, também, sobre inveja, orgulho ou ciúme. Não nomeava o que sentia, não socializava e não sabia dizer se estava alegre ou triste. Não tinha noção do tempo, não sabendo designar “ontem”, “hoje” e “amanhã”, aparentemente vivendo num mundo de sonhos, ou vigília. Com isso, extraterrestre, notícias do mundo não lhe afetavam. Guerras, violência, morte , fome, miséria, estupidez… – nada lhe causava comoção ou lhe dizia respeito.

Também não aprendeu o desejo de agradar e nem de ser aprovada pelos outros. Não tinha maiores distinções entre o “certo” e o “errado”, e nem consciência moral. Não argumentava e nem opinava. Não sabia mentir ou fingir.

Não tinha controle, autonomia e independência, nem mesmo tipo escolher as roupas, calçar os sapatos e realizar pequenas tarefas domésticas – exceto varrer a casa, o que gostava de fazer. E não tinha controle motor, tipo correr ou pular com um pé. Mas sempre andou a vida toda, com apoio humano e cuidado. Pra quase tudo dependia de alguém. Desde a comida picadinha no prato – a partir do qual ela manejava a colher e sabia seu caminho até a boca -, ao banho completo e restaurador.

Era incapaz de se gerir completamente como pessoa, tendo inconsciência de seus limites emocionais, físicos e psicológicos. Não tinha e não desenvolveu capacidade de autoconhecimento e autocuidado, e não tinha capacidade para definir limites ou desenvolver desejos além das necessidades do próprio corpo.

Raramente expressava fome, sede ou frio – mesmo os sentindo. Por tudo isso, foi cuidada por minha mãe, à qual era grudada qual Cosmo e Damião, durante mais de 60 anos. Com a morte da mãe, eu, o mais novo da família, fui nomeado seu curador. A partir daí, presença e cuidados necessários lhe foram dedicados em conjunto com outros irmãos.

Tinha memória, sentimentos e muita sensibilidade. Sabia quem era quem. Tinha facilidade para interagir com a pessoas, sem filtros no acolhimento. Cachorros, gatos e crianças gostavam de ficar perto dela ou em seu colo. Seu olhar era essencialmente amoroso.

Eu a chamava de “Bem” – usava essa palavra como um nome próprio – e era, sim, e ela o sabia, pois sempre me respondia quando assim lhe chamava. E, recíproca a mim, tinha profunda capacidade de alegrar-se com minha presença. Às vezes tinha-me uma recepção azeda, amarga, pois possuía seus humores, mas o normal era um sorriso doce, tênue e brilhante, que me fecundava o coração.

Com o tempo, foi silenciando – e mais ainda depois que nossa mãe morreu – cada vez mais dentro do seu próprio mundo.

O dia de sua morte foi um dia como todos que ela viveu: acordou, levantou-se, tomou banho, tomou café com leite, comeu pão com manteiga, foi tomar sol, depois almoçou, depois foi repousar e ali, sem estar doente ou padecendo de nada, foi indo embora (depois de ter comunicado e se despedido de uma sobrinha, dias antes, através de um sonho): começou a esvair, pouco a pouco a esvair e, qual um tico-tico – passarinho comum na sua terra de nascença em Minas Gerais -, parou de cantar, recolheu suas asas, ficou quieta e foi se esvaziando da sua energia vital, silenciosa e lentamente, cada vez mais suavemente respirando, até sua energia esvair por completo, seu coração parar de bater, o espírito desprender-se da sua gaiola e subir ao seu bom lugar espiritual.

Tenho pra mim que ela foi embora enquanto estávamos de mãos dadas, por volta das 20 horas, eu sentado ao seu lado na cama enquanto um fio de respiração ainda a sustentava e o brilho em seus olhos me fitava, pra, pouco a pouco, ir se apagando até ficar opaco e, então, seus olhos se fecharam. Daí em diante, só o silêncio abissal e primordial dentro de mim.

No seu velório, o orador religioso, que não a conhecia, destacou: “Que pecado há neste ser se nele não havia a liberdade? E o quanto essa sua jornada a purificou de eventuais pecados de outras existências?”

Encaro sua (a) morte com naturalidade. Don Juan, personagem do Castanëda, dizia que a morte está a um braço de distância – nossa companheira.

O percurso da Nilva, “meu “Bem”, no planeta Terra, se deu de 24/04/1951 a 21/06/2026, quando morreu aos 75 anos de infância.

 

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Psicanálise, terapia, autoconhecimento – algo assim. Para falar particularmente com o autor, use: 19 99760 0201 [zap] ou [email protected]

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