Foto: Carolina Felipe dos Santos, reprodução

Aniversário de Campinas

Viagem no tempo: os “100 Anos do Jockey Club Campineiro”

12 de julho de 2026

No marco zero de Campinas, o passado da elite cafeeira divide espaço com o pastel de feira

Bem no marco zero de Campinas, o cotidiano apressado do Centro esbarra em uma verdadeira cápsula do tempo. Quem caminha pelo local depara-se com um cenário de contrastes fascinantes: de um lado da calçada, o cheiro característico da barraca de “pastel frito na hora” e o vaivém sob os toldos evidenciam a vida pulsante e popular da cidade. Do outro, ergue-se a imponente fachada em tons de azul-bebê e branco do edifício do Jockey Club Campineiro, concluído em 1925.

Essa grandiosa construção é a protagonista do livro fotográfico documental “100 Anos do Jockey Club Campineiro”. Com autoria de Adriano Fujinaga, fotografias de Caroline Felipe dos Santos e texto de aprofundamento histórico do arquiteto Leonardo Abreu da Silva, a obra — realizada com o patrocínio da Prefeitura e do Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC) — propõe uma imersão visual pelas riquezas do edifício para democratizar a sua memória.

Fachada do Jockey Club na Praça Bento Quirino. Foto: Caroline Felipe dos Santos, reprodução

Em seu ensaio no livro, o arquiteto Leonardo Abreu da Silva define o edifício tombado como um “expressivo exemplar da arquitetura eclética paulista das primeiras décadas do século XX”. Ele explica que a mistura de estilos do projeto, reunindo influências que vão do Art Nouveau aos palacetes franceses, não possuía apenas uma função estética. Segundo o pesquisador, erguer um prédio daquele porte na esquina mais valorizada da cidade servia diretamente aos propósitos da elite cafeeira para “comunicar poder econômico, modernidade e distinção social”.

Hoje, a beleza dessa herança histórica reside em como ela absorve o presente, fazendo com que a opulência do ciclo do café conviva lado a lado com a rotina contemporânea de Campinas.

Um elevador que atravessou o século

O livro nos convida a um passeio pela história do prédio e é o que vamos fazer a partir de agora. Ao cruzar a porta principal de madeira e suas pesadas grades de ferro desenhadas em arabescos, o som das ruas fica para trás. O requinte do hall de entrada vermelho-escuro, banhado pela luz de um lustre de cristal, prepara o visitante para o encontro com a grande joia tecnológica do palacete: o seu elevador centenário.

O primeiro elevador de Campinas ainda em atividade. Foto: Caroline Felipe dos Santos, reprodução

Considerado o primeiro elevador preservado de Campinas, o equipamento da marca OTIS simboliza materialmente a “incorporação precoce de tecnologias modernas” pela sociedade da época, como aponta a análise arquitetônica presente no novo livro. A estrutura visual da cabine é um mergulho no passado: ela é cercada por uma robusta armação de ferro preto e clássicas portas pantográficas em formato de grade. No painel interno, emoldurado por espelhos, uma placa de metal dourada original ostenta a marcação “1906 – 2006”, celebrando o centenário de atuação da fabricante no país.

O classicismo que ganhou vida noturna

A viagem no tempo ganha ares de reinvenção ao se chegar ao segundo andar do palacete. Enquanto os outros ambientes respiram o classicismo puro, o salão de eventos do Pavimento 2 revela o diálogo do Jockey com a atual vocação noturna e festiva da cidade.

O espaço de piso de madeira geométrica exibe sofisticadas paredes verde-escuras, contrastando com poltronas confortáveis e espessas cortinas de veludo vermelho. O grande destaque do ambiente é o imponente teto espelhado. Seus painéis negros quadriculados multiplicam o brilho dos luxuosos lustres de cristal e refletem o longo balcão de mármore branco construído em formato de ilha.

Foto: Caroline Felipe dos Santos, reprodução

Um refúgio de memórias

O terceiro e último pavimento devolve o visitante ao coração mais tradicional do edifício. Longe da badalação, o andar funciona como um verdadeiro refúgio de memórias, pontuado por compridos sofás de couro preto, vastos espelhos e cristaleiras de madeira repletas de livros antigos.

A vocação para o lazer refinado é evocada por uma elegante mesa de pôquer oval, revestida com o logotipo do cavalo do Jockey Club. Bem perto dali, o som do passado repousa no teclado de um majestoso piano de cauda preto da marca alemã Zeitter & Winkelmann e nos ponteiros de um clássico relógio de coluna com pêndulo dourado.

Sob o olhar rigoroso da “Galeria dos Presidentes”, um conjunto de retratos enfileirados nas paredes, encontra-se a relíquia mais fascinante do acervo. Trata-se do “Livro de Ouro” de visitações do clube, cujas páginas amareladas abrigam a assinatura autêntica de ninguém menos que Santos Dumont.

Assinatura de Santos Dumont no livro de visitantes. Foto: Caroline Felipe dos Santos, reprodução

Um patrimônio para o futuro

Do ponto de vista construtivo, a obra não deve nada aos tempos modernos. A análise do livro revela que a resistência do Jockey Club se apoia no uso de “paredes espessas em tijolos maciços responsáveis tanto pelo suporte estrutural quanto pela inércia térmica da construção”.

Porém, a verdadeira força de sua preservação está no que o prédio representa para a cultura. Como sintetiza o arquiteto Leonardo Abreu da Silva, o edifício precisa ser lido como um “verdadeiro palimpsesto urbano — uma construção que acumula sucessivas camadas temporais materializadas em sua arquitetura”. Em seus corredores, sobrepõem-se o ciclo do café, a importação da tecnologia europeia e o dinamismo da nova geração. E como conclui o próprio arquiteto em sua análise, preservar essas paredes não se trata de saudosismo, pois “preservar a memória também é uma forma de construir o futuro”.

História

Projetado pelo engenheiro Augusto Lefréve, foi inaugurado em 1925, construído para ser sede do Jockey Club Campineiro, que havia sido fundado em 19 de setembro de 1877 por Antônio Egídio de Sousa Aranha, Francisco Elisiário, Francisco José de Camargo Andrade e José Francisco Aranha. As suas praças de corridas foram os extintos Hipódromos do Bonfim e da Boa Vista.

A área de 1.638 metros quadrados e quatro pavimentos, movimentou muito dinheiro com as apostas das corridas de cavalo. Da época da conclusão de sua sede até a década de 1970, o clube viveu um período de muito movimento, sendo palco de grandes festas da sociedade campineira, recitais de piano, violino e canto das famílias tradicionais.

Em 9 de maio de 1974, foi disputado o último páreo no Hipódromo da Boa Vista. Com o fim das corridas de cavalos em Campinas, o clube entrou em decadência mas continuou a existir. O prédio foi completamente revitalizado, passando a abrigar além da sede do clube e de um restaurante pré-existente, uma casa noturna. Em 2008, a revitalização do edifício do Jockey Club foi concluída com a instalação de um projeto luminotécnico.
(Fonte: site Prefeitura – Conheça Campinas)

Mais informações:

Livro fotográfico documental “100 Anos do Jockey Club Campineiro”

jockeyclubcampineiro.com.br/curiosidade.html / conheca.campinas.sp.gov.br

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