Por Wanderley Garcia
A Casa do Sol, refúgio em Campinas onde Hilda Hilst viveu e produziu sua revolução literária entre 1965 e 2004, rompe suas barreiras físicas. A propriedade abre suas portas ao mundo através da tela do computador e do celular. Com o novo acervo digital do Instituto Hilda Hilst (IHH), o público ganha acesso a mais de 8.000 digitalizações — entre fotografias, cartas, manuscritos e documentos pessoais.
Mas a verdadeira mágica não está apenas no volume desse lançamento: está na intimidade profunda que ele revela. Por isso, mais do que noticiar a estreia da plataforma, convidamos você para um mergulho detalhado pelas maiores preciosidades desse tesouro virtual, uma jornada que nos permite acessar a mente inquieta da autora.
Uma das paradas mais fascinantes dessa navegação virtual é, sem dúvida, a coleção “Marginália”. O acervo físico da biblioteca pessoal de Hilda reúne mais de 3.000 livros, e o site agora permite espiar exatamente como a poeta consumia suas leituras. A coleção traz anotações, trechos sublinhados, desenhos e marcas deixadas pela própria autora nas páginas de livros, dicionários e glossários.

Foto – crédito: Instituto Hilda Hilst, reprodução
Examinar essas páginas é ter em mãos um verdadeiro mapa do tesouro do processo criativo de Hilda, que revela sentidos, paixões e obsessões por trás de sua escrita. O acervo digital deixa claro, por exemplo, o fascínio profundo da autora pelo esoterismo, pela espiritualidade e pelos mistérios da vida e da morte. Ao acessar o site, é possível conferir de perto os grifos e as anotações originais feitas por Hilda em obras como:
Ver a tinta da caneta de Hilda nessas páginas mostra que seu ato de escrever não nascia do nada: ganhava força no encontro íntimo e silencioso com as palavras de outros autores.
Navegar pelas fotografias digitalizadas do acervo é testemunhar uma das mais fascinantes transformações visuais e de estilo de vida da literatura brasileira: a transição da jovem de alta sociedade para a escritora enraizada em seu próprio refúgio criativo. O site organiza essa metamorfose por meio de duas coleções contrastantes — “Antes do Sol” e “Ensolarada”.

Hilda Hilst e o marido Dante Casarini. Foto – crédito: Instituto Hilda Hilst, reprodução
Na coleção “Antes do Sol”, conhecemos uma Hilda que, antes de se fechar em sua casa-laboratório, brilhava sob outras luzes: as dos salões, dos flashes, dos encontros de alta sociedade. As imagens mostram uma mulher exuberante, sempre vestida com grande elegância em noites de gala e restaurantes refinados. É possível acompanhá-la em viagens internacionais, posando em Nova York ou na Paris de 1957, muitas vezes ao lado de figuras de destaque, como o magnata do petróleo Carlos Eduardo Paes Barreto e o amigo Cassito, com quem dividia mesas fartas de garrafas de champanhe. Os registros revelam uma sofisticação urbana e cosmopolita, mostrando-a em jantares requintados e até no luxuoso saguão do Hôtel du Palais, ao lado da amiga Marina Amaral.
O contraste visual e biográfico se completa ao clicarmos na coleção “Ensolarada”. Aqui, a pompa e os vestidos de gala dão lugar a uma mulher em plena combustão poética, habitando sua escrita como quem cultiva uma floresta interior, rodeada por árvores, cadernos e animais. A Hilda da Casa do Sol aparece relaxada, rindo na cozinha, deitada em uma rede na varanda com um cachorro no colo, ou caminhando pelo jardim em trajes muito mais confortáveis.
O brilho frio dos salões dá lugar ao calor do convívio: ela está constantemente cercada por sua matilha de cães vira-latas e por parceiros de vida como Dante Casarini (com quem foi casada), a amiga Olga Bilenky e o escritor José Luis Mora Fuentes. Nessas fotos, fica evidente que o isolamento de Hilda estava longe de ser solitário: era um retiro fervilhante de vida, natureza e conversas sem fim.
Para além dos papéis e das fotografias, a genialidade de Hilda Hilst também estava ancorada na materialidade do seu dia a dia. O acervo digital convida o internauta a bisbilhotar, cômodo a cômodo, as coleções que catalogam os pertences da poeta, revelando o universo criativo e místico que ela construiu ao seu redor.

Prêmio Jabuti. Foto – crédito: Instituto Hilda Hilst, reprodução
A começar pelo Escritório, definido no acervo como um ambiente simples, mas carregado de presença, que reflete a dedicação intensa e solitária da autora ao seu ofício. Navegando por essa coleção, o visitante encontra os instrumentos fundamentais de sua rotina: a icônica máquina de escrever Lettera 22 bege, guardada sob uma delicada capa de tecido com bordados coloridos, e seus emblemáticos aparelhos receptores, como o rádio Sanyo preto (modelo M2420) e o rádio Interplan verde-musgo (modelo 80SL).
Ao seguir virtualmente para a Sala da Lareira e a Sala de Estar, o mergulho na espiritualidade hilstiana se aprofunda. A Sala da Lareira preserva a atmosfera de intimidade e reflexão que marcava os encontros na casa, enquanto a Sala de Estar, ampla e de pé-direito alto, testemunhava a convivência entre vida e criação. Nas digitalizações desses espaços, é possível examinar em detalhes os amuletos e itens ritualísticos da escritora: o sino tibetano Gantha, as mezuzás (uma de plástico com escritos hebraicos, outra de madeira com gravura de vela), o caldeirão médio de latão adornado em relevo, além de um imponente tabuleiro de xadrez em pedra com peças de madeira.
Por fim, o tour virtual pelos objetos deságua na Sala de Memória, o núcleo documental que guarda não apenas o patrimônio da poeta, mas também as referências intelectuais que a inspiravam. É emocionante visualizar, através da tela, a galeria de fotografias emolduradas que acompanhavam Hilda — um tributo a mentes como Jean-Paul Sartre, a poeta Emily Dickinson, a filósofa Simone Weil, o escritor Franz Kafka e o poeta Ezra Pound.

Foto – crédito: Instituto Hilda Hilst, reprodução
Se o acervo digital nos permite viajar pela mente da autora, a visita presencial à Casa do Sol nos aterra no chão onde sua poesia se materializou. Localizada em Campinas (SP), a propriedade começou a ser erguida em 1963 e abrigou Hilda Hilst de 1966 até seu falecimento, em 2004. Hoje, funcionando como sede do Instituto Hilda Hilst, a residência recusa o modelo de museu tradicional, aquele em que o passado se torna uma vitrine intocável e “vitrificada”. Pelo contrário: a Casa do Sol é definida como uma verdadeira “obra em processo” — um corpo arquitetônico vivo, onde o uso cotidiano não gasta o espaço, mas o sedimenta. Como descreve o próprio Instituto, os ambientes guardam o calor das memórias, e a casa “respira junto com quem entra, escuta com quem permanece”.
Para garantir que essa pulsação continue ativa, o local atravessou, entre 2024 e 2025, o maior restauro de sua história. Conduzido pela arquiteta Mariana Falqueiro, o projeto teve como premissa central o reconhecimento de que o espaço não é imóvel: ele é feito de experiência acumulada e marcas de uso. Assim, a modernização não apagou o passado, mas respeitou as características históricas do bem tombado. O restauro devolveu à Casa do Sol condições ampliadas de conservação, acesso e segurança, permitindo que ela reabra as portas para voltar a ser atravessada, habitada e escutada pelo público.
Saindo dos ambientes internos e caminhando pelo exterior da Casa do Sol, fica claro que o jardim não funciona como mera moldura para a construção, mas como o verdadeiro “pulmão” da casa. Com mais de 100 espécies de plantas, o local abriga uma calma ativa, que opera silenciosamente por dentro, como abelhas que preparam o mel. É um espaço de pausa, de conversas e de amores, onde o verde dialoga intensamente com as paredes, os cantos dos pássaros atravessam os cômodos e saguis passeiam carregando seus filhotes nas costas, em forma de nova vida.

Foto – crédito: Instituto Hilda Hilst, reprodução
No centro exato desse convívio orgânico entre o devaneio da terra e o voo do sonho, ergue-se a estrutura que sustenta toda a gravidade afetiva da propriedade: a imensa e ancestral figueira. Sua sombra oferece alento e abrigo, e seu tronco, marcado pelas eras, parece guardar em silêncio as infinitas histórias de quem por ali passou. A sensação de quem visita é de que o jardim inteiro se organiza em torno dessa árvore monumental — uma força da natureza que, ao mesmo tempo, finca a casa no chão e a empurra em direção ao alto.
A figueira era um ponto de encontro tão vital na rotina da escritora que as próprias imagens digitalizadas do acervo atestam sua importância. Na coleção “Ensolarada”, por exemplo, a árvore protagoniza registros icônicos, como a fotografia em que Hilda e Dante Casarini posam abraçados sob sua sombra, acompanhados por seus cães. Estar sob a figueira hoje é, portanto, habitar o mesmo cenário afetivo eternizado nas fotos e vivenciar a continuidade desse espaço mágico.
Uma das transformações mais curiosas e poéticas da atual Casa do Sol envolve os antigos canis da propriedade. No passado, esses espaços abrigavam a grande matilha de cães vira-latas de Hilda, seus fiéis “companheiros de outras espécies”. Com o restauro, em vez de serem demolidas ou tratadas como ruínas, as estruturas foram alicerçadas, preservadas e adaptadas para receber uma nova infraestrutura. Onde antes ecoavam latidos e aconteciam afagos, hoje o espaço acolhe vozes, livros, risos e debates. É exatamente nos antigos canis que acontece, por exemplo, a Feira Literária Hilstianas, reafirmando o compromisso do local como um território de ocupação cultural e convivência.

Foto – crédito: Instituto Hilda Hilst, reprodução
Para o leitor que se encantou com o mergulho nas “gavetas virtuais” do novo acervo digital, o convite para a experiência tátil está feito. A Casa do Sol funciona hoje de portas abertas, oferecendo diferentes formatos de visita — individuais, pequenos ou grandes grupos — que aproximam o público da atmosfera criativa da autora. As visitas guiadas conduzem os interessados por percursos imersivos que passam pela biblioteca, pelo quarto de Hilda e, claro, pelo lendário jardim.
O espaço também reforça seu papel na disseminação da educação e da arte. Somente em 2025, o programa educativo do Instituto Hilda Hilst já recebeu 30 escolas. E para quem busca a Casa do Sol não apenas para observar, mas para produzir, o local oferece um programa de residências artísticas, através do qual novos escritores e pesquisadores têm a oportunidade de se hospedar e trabalhar no exato lugar onde a poeta concebeu suas maiores obras-primas.
A magia de Hilda Hilst, que agora ganha o mundo a um clique de distância no ambiente virtual, continua, mais do que nunca, com os pés fincados na terra e na história da sua própria casa.
Serviço
Acervo digital do Instituto Hilda Hilst: hildahilst.com.br
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