Por Sara Silva
Com uma trajetória que se confunde com a própria história cultural da cidade, a Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas (OSMC) vive um novo momento às vésperas de completar 100 anos.
Além de ter voltado recentemente para sua ‘casa’, no teatro do Centro de Convivência de Campinas, reinaugurado em 2025, a orquestra também está com novo maestro: o gaúcho Evandro Matté, nomeado em abril de 2026. Indicado na lista tríplice elaborada pelos músicos, o regente titular fez sua estreia ao público no concerto comemorativo dos 252 anos de Campinas, que teve como convidado especial o sambista Dudu Nobre, realizado no teatro de Arena na sexta-feira, dia 3 de julho (lembrando que a data oficial do aniversário da cidade é 14 de julho).
Com atuação relevante no cenário da música de concerto, Matté, de 56 anos, iniciou seus estudos musicais aos sete anos. Aos 15, já integrava a Orquestra Sinfônica de Caxias do Sul (RS), sua cidade natal, como trompetista. foi Diretor Artístico da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) entre 2015 e 2024. É também o fundador do Festival Internacional SESC de Música (Pelotas), um dos maiores festivais de música de concerto da América Latina. Em 2019, foi condecorado pelo governo francês com a insígnia de Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres. Também é reconhecido por liderar projetos inovadores que incluem a renovação de orquestras, a realização de turnês e festivais na América Latina, e a instituição de programas sociais e de formação musical. A sua contribuição para a cultura brasileira se estende à concepção de novos territórios para a música de concerto e à construção de importantes espaços culturais, como o Teatro Unisinos e a Casa da OSPA.
O novo diretor artístico e regente titular da Sinfônica de Campinas assumiu a batuta com o compromisso de preservar a essência da orquestra local e, ao mesmo tempo, expandir suas fronteiras musicais. No concerto de estreia, já transitou entre a erudição da música de concerto e a música popular. No programa, a Sinfônica apresentou na abertura a “Marcha Eslava op. 31”, de Tchaikovsky, e “Danzón nº 2”, de Arturo Márquez, seguidas de samba na parceria com Dudu Nobre.

Foto – crédito: Campinas.com.br
Com uma sólida bagagem e a liderança de grandes projetos institucionais e educacionais no Sul do país, o maestro traz para Campinas a convicção de que o desenvolvimento social caminha lado a lado com o acesso à cultura desde a base.
Nesta entrevista exclusiva ao Campinas.com.br, o novo regente da OSMC compartilha suas primeiras impressões sobre a cidade e a cena cultural local, fala sobre seus planos para agregar novos elementos, como óperas, balés e maior circulação regional, e comenta sobre o planejamento que acredita ser importante para o grande marco que se aproxima: o centenário da orquestra em 2029.
Confira a entrevista na íntegra a seguir.
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Foto – crédito: @vitoriaproenca
Campinas.com.br: O senhor assume a Orquestra Sinfônica de Campinas após mais um período de grande aproximação com o público. Como pretende preservar esse legado e, ao mesmo tempo, imprimir sua própria identidade artística à orquestra?
Evandro Matté: Historicamente, a Orquestra de Campinas sempre teve uma grande aproximação com o seu público. Não só o seu público, quanto o externo também. Desde o período do (maestro) Benito Juarez, ela teve uma conexão sempre muito forte com a sociedade. Eu lembro também que sempre que a Orquestra de Campinas ia para o Festival de Campos do Jordão, era uma das principais atrações, muito bem recebida pelo público de lá. Então, eu acredito que isso é uma questão histórica da orquestra. E acontece justamente porque ela sempre buscou uma diversificação no seu repertório, ampliando fronteiras além da música de concerto. Eu acredito que, além disso, de manter, eu sempre digo este DNA da orquestra, eu acho que nós podemos também agregar novos elementos, como execução de ópera, execução de balés e também ampliar uma questão de circulação dela dentro da própria cidade e também da Região Metropolitana de Campinas.
Campinas.com.br: Em sua apresentação, o senhor destacou o “DNA” de Campinas, marcado pela convivência entre a música de concerto e a música popular, uma tradição iniciada ainda na época do maestro Benito Juarez. Que novos caminhos essa proposta pode ganhar nos próximos anos?
Evandro Matté: Eu acredito que nós possamos estar atentos às linguagens contemporâneas da música, e a partir daí estabelecer novas conexões. Eu acho que esse é um caminho que nós podemos trilhar pela frente. Mas sempre é importante ressaltar que o objetivo principal de uma orquestra é a música de concerto, e obviamente buscando também agregar esses novos elementos. Quando eu cito música contemporânea, é tanto a música contemporânea de concerto quanto as linguagens populares.
Campinas.com.br: Ao longo da carreira, o senhor liderou processos de transformação institucional, como a reestruturação da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e a criação de projetos de formação musical. Que experiências dessas gestões pretende trazer para fortalecer a Sinfônica de Campinas?
Evandro Matté: Eu não tenho nenhuma dúvida que o desenvolvimento de uma sociedade passa pelo vínculo com as artes. Nós temos aí exemplos de muitos países desenvolvidos onde as artes de um modo geral, especialmente a música, ela está presente desde os momentos iniciais na educação de uma criança. Isso é extremamente importante. Então, por isso, eu sempre me preocupei, em todos os lugares onde eu trabalhei, desenvolver projetos educacionais, sejam eles sociais ou de formação, buscando uma profissionalização. Na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, eu ampliei a escola da Ospa, passei de 120 alunos para mais de 300. Como você disse, eu fiz uma realização institucional bastante forte lá. Quando fui coordenador do projeto cultural da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, a Unisinos, lá no Sul, também liderei um projeto de construção de um teatro e que se transformava também em sala de concerto lá na universidade. E, felizmente, em 2017, eu consegui, então, construir a Casa da Ospa, que era algo que se esperava há 65 anos, que é uma sala de concertos com quase 1.100 lugares e uma estrutura de trabalho para a orquestra ideal para que os músicos e o pessoal administrativo possam exercer bem o seu trabalho.
Eu acho que Campinas já tem uma estrutura boa, mas talvez nós possamos pensar em novas possibilidades. Eu lembro que na na minha entrevista coletiva de apresentação, o prefeito fez uma colocação sobre a questão de que a orquestra é tão procurada aqui pelo seu público que às vezes se torna difícil o fato de ter dois teatros que não possuem uma amplitude maior de assentos. Então, quem sabe a gente possa pensar aí para frente em alguma solução com, talvez, Campinas tendo uma bela sala de concerto, assim como São Paulo fez, assim como Minas Gerais, como Belo Horizonte, Minas Gerais fez, mas são coisas que a gente pode ir discutindo ao longo do trabalho.
Campinas.com.br: Campinas possui uma história musical ligada a Carlos Gomes e também uma cena cultural bastante diversificada. Como o senhor imagina que a Sinfônica pode dialogar ainda mais com os artistas, compositores e públicos da cidade?
Evandro Matté: Eu acredito que o papel de uma orquestra é justamente esse, né? Além da sua programação tradicional de concertos, que as pessoas sempre querem ouvir, obviamente, compositores tradicionais, concertos no formato tradicional… Eu acredito que também é o papel de uma orquestra buscar novas linguagens e novos elementos. Então, eu estou chegando há pouco aqui, mas já estou me inteirando bastante da cena cultural aqui de Campinas. E eu tenho certeza que, em um trabalho conjunto com a comissão dos músicos, a comissão artística dos músicos da orquestra, que vivenciam aqui Campinas, a gente vai poder evoluir mais nesse diálogo com os artistas, os compositores aqui da cidade de Campinas.
Campinas.com.br: O senhor iniciou sua carreira como trompetista antes de se tornar regente. De que forma essa vivência como músico de orquestra influencia sua relação com os instrumentistas e o ambiente de trabalho durante os ensaios e concertos?
Evandro Matté: Sim, essa pergunta é excelente. Eu tive minha primeira atuação em uma orquestra com 15 anos, na minha cidade natal, Caxias do Sul (RS). Existia uma orquestra lá, Orquestra Sinfônica de Caxias do Sul, e foi a minha primeira experiência com orquestra. Inclusive, foi uma ópera, que foi Intermezzo, ‘Cavalleria Rusticana’ E desde então, desse momento, eu nunca mais parei de tocar em orquestra. Só na Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, que é uma orquestra das mais importantes da América do Sul, eu atuei 25 anos como trompetista e também atuei por muito tempo em gestões de cargos distintos, até presidente da associação dos músicos da orquestra. E depois também, então, passei para o outro lado, o lado da direção, assumi a direção da orquestra. Eu acho que essa vivência de músico dentro da orquestra me deu muito conhecimento.
Eu sempre fui muito observador. Então, na Ospa passaram grandes regentes. A gente teve lá Eleazar de Carvalho, David Machado, uma gama enorme de regentes internacionais. Então, por ser muito observador, eu acho que eu consegui aprender muito a forma deles trabalharem com a orquestra. Por eu ter atuado também dentro da entidade, a associação dos músicos, eu aprendi muito nessa relação de convivência entre o poder público e a orquestra, os músicos e os funcionários, os colaboradores da fundação. E também aprendi muito do ponto de vista jurídico do que pode, do que não pode, as necessidades, porque uma orquestra ela é sempre um um organismo muito peculiar, diferente. Ela está dentro do serviço público, mas ela tem processos distintos no seu dia a dia. Então, acho que sim, eu acho que todos esses elementos vão contribuir muito para que eu possa atuar da melhor forma aqui em Campinas.
E você citou citou a questão de relação com os instrumentistas, ambiente de trabalho. Eu acho que isso é de cada ser humano, de cada pessoa, sua forma de trabalhar. Mas acredito, sim, que a experiência da vida, a experiência de ter convivido com muitos grupos, não fui regente só da Ospa, eu fui também da Orquestra Unisinos, Orquestra Theatro São Pedro, em Porto Alegre, me dão a condição de tentar fazer um bom diálogo, um bom trabalho e encontrar as melhores soluções para que a Orquestra de Campinas siga no seu rumo de uma das grandes orquestras do país e possa evoluir e crescer cada vez mais.
Campinas.com.br: Em 2029, a Sinfônica de Campinas completará 100 anos. Já há planos para as comemorações dessa data tão significativa, uma vez que é a orquestra mais antiga do gênero em atividade no país e a primeira a surgir em uma cidade brasileira fora de capital de estado, além de ser uma das poucas, senão a única, do interior do país a manter uma orquestra completa profissional?
Evandro Matté: Sim, isso é uma coisa incrível, né? É uma cidade de interior, mas não tem características de uma cidade de interior. É uma grande cidade, eu estou encantado aqui com o potencial, com tudo que Campinas oferece, apesar de estar há pouco tempo aqui. Mas isso é de se celebrar! Uma cidade, não uma capital de estado, que tem uma orquestra, uma orquestra de alto nível, e há tanto tempo. São pouquíssimas, eu sempre falo isso, instituições culturais que conseguem sobreviver 100 anos. Então, a gente tem que saudar muito isso e a gente tem que dar a real importância desse fato. Quanta coisa boa essa essa orquestra entregou para a sociedade nesses 100 anos.
Bom, primeiro preciso lembrar o seguinte: de acordo com o sistema de ocupação do cargo de diretor artístico e regente titular, que é um processo de escolha dentro de cada gestão da prefeitura, então, em princípio, o meu trabalho ele é até dezembro de 2028, que é quando finda a gestão municipal aqui do prefeito Dário (Saadi). Mas, independentemente disso, nós não podemos deixar que 2029 não seja um ano especial para a orquestra, porque temos que organizar esse centenário, independente de qualquer outra coisa. Então, em breve, devemos começar algumas reuniões junto à secretária (de Cultura e Turismo) Alexandra (Caprioli), junto à prefeitura e a própria orquestra, para que a gente possa estabelecer, talvez, um grupo de trabalho que venha a pensar a comemoração desse centenário lá em 2029, e que a coisa fique estruturada, independentemente das pessoas que estejam naquele momento. Então, acho que é fundamental, sim, a gente começar a fazer um levantamento de toda a história desses 100 anos (que já deve existir, provavelmente), e começar a pensar com um grupo de trabalho o que será feito lá no centenário da orquestra.
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