Nesta crônica de aniversário, imaginamos uma Campinas que trocou de destino com São Paulo em 1889. É ficção com base na lenda (ou realidade) de que a cidade seria a capital do estado não fosse a epidemia de febre amarela no final do século 19. Quem narra é Cecília, uma paulistana imaginária que deixou a serrana São Paulo pelos ares turbulentos da “Campineia Desvairada”. Ela descreve a suposta capital a uma amiga também fictícia, Marina, que ficou na bucólica ‘Sampa’.
Por Wanderley Garcia
Minha querida Marina,
Você vai rir de mim, eu sei. Faz três invernos que te escrevo estas cartas — sempre prometendo contar como é, de verdade, viver aqui, e sempre acabando por descrever apenas o barulho. Mas hoje é véspera de aniversário de Campinas, ela completa 252 anos de existência, e talvez seja a data certa para tentar, enfim, te explicar o que ganhei — ou o que perdi, ainda não sei bem qual das duas — no dia em que resolvi deixar nossa sossegada São Paulo e vir para cá.
Porque não esqueço, Marina, que nascemos as duas na mesma rua paulistana, sob o mesmo sol manso, e que fui só eu quem decidiu, sozinha, pegar a Bandeirantes rumo a essa Campineia Desvairada. Você ficou na cidade pequena — sei que não gosta que eu chame assim a nossa São Paulo, com seus ônibus lentos e suas tardes de varanda nos bairros, mas é a verdade: enquanto vocês continuaram provincianos e felizes, aqui um organismo enorme e nervoso, que nunca dorme, foi engolindo aos poucos a moça sossegada que um dia saiu de casa com duas malas e um endereço novo.
Lembra que te contei da epidemia? Daquele ano terrível, 1889, quando a febre amarela varreu esta terra e quase a apagou do mapa? Pois foi dali, do meio das cinzas, que nasceu a fênix no nosso brasão — e foi dali, dizem os mais velhos, que a cidade jurou nunca mais ser pequena. Cumpriu a promessa com uma sanha quase assustadora. Hoje, quando alguém me pergunta onde fica o coração financeiro do país, eu aponto para a janela do meu apartamento e digo: aqui, ó, neste emaranhado de vidro e concreto que você chamaria de pesadelo e eu, nos dias bons, ainda chamo de casa.

Largo do Rosário com as escadarias de acesso ao metrô. Imagem gerada por inteligência artificial
Devo confessar uma coisa, Marina: nos primeiros meses eu me perdia toda semana. Não sabia decifrar o nó de gente no metrô do Largo do Rosário, onde as maiores linhas se cruzam; nem entendia por que ninguém aqui parece ter pressa de chegar a lugar nenhum — só pressa de sair de onde está. Aprendi a temer a hora do rush na Marginal do Piçarrão como quem teme uma maré: ela sobe devagar, engole a cidade inteira, e só baixa quando já é noite alta.
Mas também aprendi a amar certas coisas que você jamais entenderia à distância. O jeito como o Edifício Mirante corta o céu do centro e, à noite, com chuva, o relógio do Farol Itaú fica tremeluzindo feito uma ferida bonita sob a bandeira do estado sobre o mar de concreto — eu subo lá de vez em quando, só para sentir que sou pequena de novo, coisa que aqui a gente esquece com facilidade.
E há a Avenida Júlio de Mesquita, onde os prédios se espelham uns nos outros como se competissem por vaidade, e onde, debaixo das árvores do Cambuí, o Centro de Convivência ainda guarda espaço para arte, para protesto, para tudo aquilo que o dinheiro não consegue comprar por completo.

Centro de Campinas, edifício Mirante dá lugar ao Farol Itaú. Imagem gerada por inteligência artificial
O dinheiro, aliás, tem endereço certo aqui: mora no Jardim Paineiras. Você ia estranhar esses rapazes — nós os chamamos de “Paineiras Boys” — de colete inflável por cima da camisa social, negociando tecnologia em voz alta pela rua, como se o mundo inteiro precisasse saber quanto renderam hoje. Eles se juntam no fim da tarde no Giovannetti, e eu confesso que gosto de ir lá só para escutar, escondida atrás de um copo, o sotaque cheio de si com que fecham negócios de risco entre um gole e outro.
Existe, porém, uma Campinas que nenhum desses rapazes conhece, e é essa a que mais me prendeu aqui. Fica um pouco fora do circuito deles, na Fazenda Roseira — que não é só lugar de roda de jongo e celebração, Marina, é um arquivo vivo. Você sabe, ou talvez não saiba, porque na nossa Sampa isso nunca nos foi ensinado direito, que esta cidade foi um dos maiores entrepostos escravistas do país, talvez o maior deles: foi o corpo de gente sequestrada da África que ergueu os primeiros cafezais, que pagou com o próprio suor a riqueza que depois virou trilho de trem e mais tarde virou torre de vidro. A Fazenda Roseira existe para que ninguém esqueça essa conta — ali se preserva memória de quilombo, se recupera documento, se conta a história que os livros oficiais preferiram apagar. Gente de todo o continente atravessa fronteiras para vivenciar aquilo, e não como turismo: como reparação. Foi lá, Marina, que entendi que o barulho de que tanto reclamo não é só o barulho do dinheiro — é também o som de uma dívida antiga, ainda impaga, que se recusa a ser engolida pela pressa.
E tem a política, que aqui nunca dorme direito. Você deve se lembrar de ter ouvido falar das Greves de Sumaré e Hortolândia, lá no final dos anos 70 — o dia em que os metalúrgicos do nosso cinturão industrial cruzaram os braços e mudaram os rumos do país inteiro. Foi de dentro daquelas assembleias barulhentas, contam os mais velhos, que se revelou um líder sindical de barba, um tal de Luiz Inácio, que anos depois acabaria presidente da República — coisa que, àquela altura, nem ele levava muito a sério. Ainda se sente o eco daquilo nas ruas.

Centro de Convivência Cultural. Imagem gerada por inteligência artificial
E não muito longe dali, do outro lado da cidade, fica a Unicamp, que se tornou o centro intelectual do país, o lugar para onde convergem as teses, os prêmios e as polêmicas acadêmicas que depois desembocam nos jornais de Brasília. Foi por aqueles corredores que um professor chamado Fernando Henrique Cardoso andou discutindo sociologia, lanchando qualquer coisa entre uma aula e outra, também sem imaginar, talvez, que um dia trocaria a cátedra pelo Palácio. Dois filhos criados nesta terra, tão diferentes um do outro, dividindo décadas depois a mesma cadeira mais alta do país — isso aqui a gente conta com orgulho e desconfiança em doses iguais.
Nos fins de semana eu escapo para o Taquaral, o pulmão verde no meio de tanto cimento. Dizem que Orestes Quércia, o político que desenhou aquela lagoa quando era prefeito, foi chamado de louco e de visionário na mesma frase — e olhando o tamanho dela, entendo por que precisou das duas coisas para não deixar a cidade sufocar de vez. Em certas noites de verão ainda tem música lá, gente cantando junto, e por uma hora ou duas eu esqueço que moro numa metrópole e me lembro que moro, também, à beira de um lago.
Preciso te contar também sobre o Campo Grande e o Ouro Verde, porque seria desonesto falar dos prédios espelhados sem falar de quem os ergueu tijolo por tijolo. São bairros enormes, quase cidades dentro da cidade, de onde sai todos os dias, ainda de madrugada, o exército invisível que constrói as torres do centro, limpa os escritórios do Paineiras, cozinha o almoço e cuida dos filhos dos outros. Foi gente de lá — migrante do norte, do interior, filho e neto daquela mesma história de que te falei há pouco — que ergueu esta megalópole com as próprias mãos, e que depois, com a especulação imobiliária empurrando tudo para as franjas, nunca teve direito de morar perto do que construiu. Quando olho os condomínios murados de Joaquim Egídio de costas para o Ouro Verde, entendo que esta cidade tem duas faces que se recusam a se olhar.

Imagem gerada por inteligência artificial

Imagem gerada por inteligência artificial
Queria te contar ainda sobre os aeroportos — o dos Amarais, que engoliu o bairro e faz os aviões passarem raspando o telhado das casas, e o outro, o gigante, que vira dia e noite recebendo o mundo inteiro. Queria te contar do trânsito crônico da Dom Pedro. Queria te contar de tudo isso, mas sei que você vai balançar a cabeça do outro lado e dizer, com a doçura de sempre, que prefere sua tarde de varanda a qualquer um dos meus relógios de neon. Talvez você tenha razão. Mas há um dia por ano em que todo mundo aqui — o Paineiras Boy e o metalúrgico aposentado, o motorista buzinando meio segundo cedo demais e a mulher que dança jongo na Roseira — para exatamente ao mesmo tempo diante da televisão, quando Ponte Preta e Guarani entram em campo, seja na Arena Brinco de Ouro, seja no megaestádio Majestoso. Nesse dia, por noventa minutos, a megalópole vira aldeia de novo, e todo mundo grita a mesma coisa para a mesma direção. É o único momento em que reconheço, sem sombra de dúvida, que ainda é a cidade que adotei, a minha cidade.
Parabéns a ela, então, pelos seus 252 anos — essa fênix que não soube mais ser pequena, para o bem e para o mal. E parabéns a você, minha querida, por ter ficado onde a vida ainda cabe numa tarde inteira.
Com saudade do sossego que escolhi trocar,
Sua Cecília
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