Por Noêmia Gomes
As andorinhas em coreografia pelos céus campineiros, imortalizadas por Rui Barbosa, já não são vistas aos bandos por aqui.
Às vésperas de completar 246 anos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classificou Campinas como metrópole, a única cidade do País que não é uma capital, e os motivos não chegam a ser novidade: além da taxa populacional, a riqueza da sua região e sua importância na logística nacional, com diversas rodovias que cortam o município, a cidade tem ainda o maior aeroporto de cargas da América Latina, o Aeroporto Internacional de Viracopos, e seu reconhecido polo tecnológico.
A terra das andorinhas deixou os bondes e as carroças para trás há muito tempo e investiu na vocação tecnológica. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que figura nos principais rankings universitários do Brasil e América Latina, juntamente com instituições como o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), a o ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos) e o CPQD, berço da fibra óptica no Brasil, contribuem para o desenvolvimento contínuo.
Ao longo dos anos, a criação da Companhia de Desenvolvimento Tecnológico de Campinas (Codetec), as duas unidades da Companhia de Desenvolvimento do Polo de Alta Tecnologia de Campinas (Ciatec 1 e 2) e políticas públicas de incentivos fiscais, como a isenção do pagamento de ISS e IPTU para empresas de base tecnológica, reforçaram o crescimento do parque que hoje abriga quatro laboratórios nacionais, entre eles o famoso e mais recente Sirius.
Maior e mais complexa infraestrutura científica já construída no Brasil, o Sirius (nome que é uma referência à estrela mais brilhante do céu noturno), um laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, é um gigantesco acelerador de partículas, com 518 metros de circunferência e 68 mil m². Está localizado no campus do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), entidade mantida e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e foi planejado para colocar o país na liderança mundial de produção de luz síncrotron, possibilitando o desenvolvimento de pesquisas nas áreas de energia, meio ambiente, defesa, saúde, alimentação, nanotecnologia, biotecnologia, física, e muitas outras.
Com o acelerador, são alcançadas escalas mínimas, no nível das partículas elementares (átomos e moléculas). Essa máquina funciona como um grande microscópio que, ao revelar a estrutura molecular, atômica e eletrônica dos mais diversos materiais, permite pesquisas em praticamente qualquer área do conhecimento, com potencial de resolver grandes problemas da atualidade.
Todos esses motivos rendem à cidade uma comparação com o Vale do Silício, na Califórnia (EUA), que abriga empresas globais de tecnologia, como Apple, Facebook e Google. Afinal, boa parte da produção de tecnologia do país está por aqui: 32 das 500 maiores sedes de empresas de tecnologia da informação do mundo estão em Campinas.
O presidente da Fundação Fórum Campinas Inovadora e diretor do Parque Científico e Tecnologia da Unicamp, Eduardo Gurgel do Amaral, considera que o Polo de Alta Tecnologia é fundamental para o desenvolvimento da cidade. De acordo com ele, a tecnologia é matéria-prima para a inovação e ressalta que todas as facilidades encontradas hoje no dia a dia foram frutos de estudos e pesquisas. “Quanto mais geração de conhecimento, maior a possibilidade de aplicar esse conhecimento em bens tangíveis a serem usados”, afirma.
Um exemplo bem recente dessa transformação é a corrida pela vacina de Covid-19, a vacina depende de estudos e pesquisas. Quanto mais pesquisas, mais acertos.
Para Gurgel, a comparação com o Vale do Silício que a cidade carrega pode ser melhor aplicado, se considerarmos a qualidade das universidades, dos pesquisadores e a importância das indústrias, empresas e startups instaladas na cidade. “Campinas tem um potencial muito maior de influenciar, criar estratégias e ações de desenvolvimento”, analisa.
Neste terceiro milênio, a cidade das andorinhas abriu lugar para empresas jovens, tornou-se aceleradora de startups, com treinamento para gestores de inovação, e incentiva o empreendedorismo.
E por falar em andorinhas, a despeito do aniversário da cidade, elas, que quase já não eram percebidas mais na estrutura urbana da cidade, retornaram neste início do mês de julho, talvez para comemorar juntamente com Campinas todas as conquistas da recém-nascida metrópole, que não é só interessante aos olhos dos pesquisadores e empresários, mas cheia de possibilidades para todos que a escolheram e ainda escolhem.
Foto: site Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM)
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