O anúncio do vencedor na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar vai fazer o Brasil parar mais uma vez. Em 2026, o Brasil chega como um dos favoritos com “O Agente Secreto”, depois de faturar o prêmio em 2025 com “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles. Mas o caminho até a estatueta exige superar uma safra de obras que a crítica mundial descreve como uma das mais fortes em décadas. Cinco países. Cinco histórias radicalmente diferentes. Uma única estatueta.
Antes de torcer, conheça os adversários.
O rival mais temido. Depois de encantar o mundo com “A Pior Pessoa do Mundo” (2022), o norueguês Joachim Trier retorna com um drama intimista sobre duas irmãs — Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas — que precisam lidar com o retorno do pai, um cineasta egocêntrico vivido por Stellan Skarsgård, que deseja escalar uma delas em seu próximo filme autobiográfico. A trama explora o custo emocional de transformar memórias pessoais em arte — e os contratos invisíveis que existem entre pais e filhos.
A vibe é melancólica e precisa, com aquele humor sutil típico do cinema escandinavo que faz rir e apertar o coração ao mesmo tempo. O filme acumulou 9 indicações no total — o maior número entre os concorrentes internacionais — e foi eleito Melhor Filme Europeu no Prêmio Goya.
O próprio Trier encarou a rivalidade com o Brasil com elegância. Em entrevista ao The Hollywood Reporter, reconheceu que a disputa com “O Agente Secreto” movimenta o debate público de forma saudável: “No fim das contas, isso faz com que as pessoas assistam e discutam os filmes, e mesmo que às vezes se transforme em um tipo de Beatles versus Stones — e sabemos que ambas são ótimas bandas —, está tudo bem.”
Por que pode vencer? Os modelos matemáticos colocam a Noruega à frente, com 42,9% de probabilidade contra 27,4% do Brasil. A Variety prevê que ele “Vencerá” (Will Win), apontando o forte bloco de votação europeu dentro da Academia como fator decisivo. Trier é um nome respeitado em Hollywood — e respeito se traduz em votos.
Onde ver: Mubi.
O peso de uma Palma de Ouro não é pouca coisa. Jafar Panahi, cineasta iraniano dissidente e um dos mais corajosos do mundo, venceu o prêmio máximo de Cannes 2025 com este thriller moral que começa de forma quase banal — um pai de família atropela um cachorro numa estrada escura à noite — e se transforma numa espiral de dilemas éticos, retribuição e brutalidade num país marcado pela corrupção. A cinematografia de Amin Jafari e o uso magistral de planos-sequência criam uma tensão que não sai da cabeça.
A vibe é seco-cômica e sufocante: você ri, se desconforta, e não sabe bem onde um termina e o outro começa.
Por que pode vencer? Palma de Ouro costuma ser o melhor passaporte para Hollywood. Panahi é também uma figura com um significado político que vai além do cinema — sua coragem pessoal ressoa com membros da Academia sensíveis ao tema da liberdade de expressão. O National Board of Review dos EUA o elegeu o melhor filme internacional do ano.
Onde ver: Mubi.
O mais hipnótico da lista. Oliver Laxe — vencedor do Prêmio do Júri em Cannes por seu trabalho anterior — leva um pai e seu filho de 10 anos numa jornada pelo deserto do Marrocos atrás de uma filha desaparecida após uma rave. Pelo caminho, eles se juntam a uma caravana de desajustados vivendo à margem do mundo. É um road movie existencial, lento e avassalador, que usa o som e a imagem como instrumentos de impacto visceral.
A vibe é sombria e hipnótica — o tipo de filme que você não consegue descrever para alguém, mas que fica impregnado por dias.
Por que pode vencer? Sirât saiu de Cannes premiado e venceu 6 prêmios técnicos no Goya, o mais importante prêmio do cinema espanhol. Fez história ao apresentar a primeira equipe de som inteiramente feminina indicada ao Oscar — um feito que não passa despercebido numa Academia cada vez mais atenta à representatividade técnica.
Onde ver: nos cinemas.
O filme mais urgente e doloroso da seleção. A diretora tunisiana Kaouther Ben Hania — já indicada ao Oscar por “O Homem que Vendeu sua Pele” — constrói uma docuficção que reconstrói os últimos momentos de uma menina palestina de 5 anos presa em Gaza, utilizando as gravações reais de seus pedidos de socorro enquanto paramédicos tentam, desesperadamente, chegar até ela.
Não há como descrever a vibe sem usar a palavra devastador. Em Veneza 2025, o filme recebeu uma ovação de 23 minutos — recorde na história do festival — e saiu com o Grande Prêmio do Júri.
Por que pode vencer? Porque fala de algo que o mundo não consegue ignorar. O impacto político e emocional desta obra é avassalador, e há um bloco de membros da Academia profundamente sensibilizado pelo cenário geopolítico atual. Em anos anteriores, filmes com essa urgência humanitária já surpreenderam na reta final.
Onde ver: distribuição internacional pela Willa; sem data de streaming confirmada no Brasil até o momento.
Diante desse campo, seria desonesto fingir que a vitória de “O Agente Secreto” está garantida. Mas seria igualmente desonesto ignorar que Kleber Mendonça Filho chegou a esta noite com o filme de maior aprovação crítica entre todos os indicados a Melhor Filme — 98% no Rotten Tomatoes — e com o “Should Win” (Deveria Vencer) de veículos como o The Hollywood Reporter e The Guardian.
A matemática favorece a Noruega. O coração da crítica favorece o Brasil. E no Oscar, as duas coisas já decidiram noites em direções opostas.
Torça. E, se puder, assista aos cinco. Raramente uma categoria ofereceu tanto cinema de uma vez.
A cerimônia do Oscar 2026 acontece neste domingo, 15 de março, a partir das 22h pelo horário de Brasília, com transmissão pela Rede Globo, TNT e Max.
Newsletter:
© 2010-2026 Todos os direitos reservados - por Ideia74