Foto - crédito: Victor Jucá, divulgação

Cinema

O Agente Secreto: bastidores, sete anos de pesquisa e o caminho de um thriller brasileiro rumo ao Oscar

13 de março de 2026

Quatro indicações ao Oscar. Treze minutos de ovação em Cannes. Trezentas e cinquenta mil pessoas nas salas de cinema apenas no fim de semana de estreia no Brasil. Os números de “O Agente Secreto” impressionam — mas é nos detalhes de bastidores que se revela por que este thriller político de Kleber Mendonça Filho conquistou a crítica mundial e chegou ao Oscar 2026 como um dos filmes mais celebrados da temporada.

O enigma do protagonista: quem é Marcelo?

O personagem interpretado por Wagner Moura é o centro gravitacional do filme — e sua identidade é deliberadamente complexa. Na trama, ele se apresenta como Marcelo, nome falso que carrega como escudo. Seu nome real é Armando: pesquisador e professor universitário especialista em tecnologia que chefiou o departamento de Engenharia Elétrica de uma universidade federal em São Paulo e patenteou inovações em baterias de lítio.

Foi exatamente essa competência que o tornou um alvo. Ao entrar em rota de colisão com Ghirotti, um funcionário federal corrupto que queria reservar o desenvolvimento da tecnologia apenas para “especialistas do sul”, Armando viu seu departamento ter as verbas cortadas — e sua vida virar de cabeça para baixo. Ele foge para o Recife de 1977 em busca do filho e de documentos que comprovem sua história, enquanto é caçado por matadores de aluguel.

Para Moura, a tragédia do personagem tem uma dimensão moral precisa: “É um personagem que é punido não por seus defeitos, mas por suas qualidades.”

Uma narrativa em dois tempos: o passado investigado pelo presente

A estrutura do filme recusa a linearidade. A maior parte da trama se passa em 1977, acompanhando a fuga de Armando/Marcelo pelas ruas do Recife. Mas o desfecho de sua história é revelado por outro caminho: no tempo presente, a pesquisadora Flávia — interpretada por Laura Lufesi — e um grupo de estudantes universitários em São Paulo vasculham os rastros que ele deixou. Eles ouvem fitas cassete de conversas grampeadas, analisam jornais de época e reconstroem, peça por peça, o que aconteceu com Marcelo.

Essa arquitetura narrativa transforma o espectador em investigador. O filme funciona quase como um relatório — uma investigação informal sobre como o Brasil apagou a memória de seus perseguidos políticos. É essa camada que eleva o thriller de gênero a algo maior: um exercício coletivo de não esquecer.

Sete anos de arqueologia urbana

Recriar o Recife de quase meio século atrás foi o maior desafio técnico da produção. Kleber Mendonça Filho passou sete anos pesquisando arquivos da cidade — processo que começou durante as filmagens de seu documentário “Retratos Fantasmas” — antes de sentir que tinha material suficiente para reconstituir aquele mundo com honestidade.

O obstáculo central era a homogeneização visual imposta pela globalização: as cidades brasileiras de hoje se parecem umas com as outras, e pouco lembram o que eram nos anos 70. A solução foi uma combinação de precisão e inventividade. A equipe de produção e figurino — Thales Junqueira e Rita Azevedo — incentivou figurantes e técnicos a garimpar fotos de família dos próprios pais para entender como as pessoas se vestiam e como eram os interiores das casas na época. Locações que resistiram ao tempo, como o Cinema São Luiz e a Praça do Sebo, funcionaram como portais para o passado.

Na fotografia, a escolha foi igualmente precisa: lentes anamórficas Panavision e equipamentos antigos garantiram o alto contraste e as cores saturadas típicos das películas dos anos 70 — uma estética que o olho reconhece antes mesmo de processar conscientemente.

Um elenco com as caras do Brasil

Com mais de 60 personagens, O Agente Secreto é uma obra de gigantismo humano deliberado. Ao lado de Wagner Moura, desfilam nomes como Maria Fernanda Cândido e Gabriel Leone, mas também heróis não convencionais: fugitivos queer, mulheres negras, figuras que a história oficial preferiu ignorar. Kleber foi explícito sobre a intenção — o elenco deveria ter as verdadeiras “caras do Brasil”.

Dois personagens de apoio merecem destaque especial. Tânia Maria interpreta Dona Sebastiana, a carismática dona do prédio onde Marcelo se esconde — uma mulher que, nas palavras do diretor, “adora uma fofoca” e se tornou o fenômeno afetivo do filme. Kleber a descreve como peça-chave para dar leveza à narrativa: sem ela, o peso do medo da ditadura esmagaria qualquer respiro. É ela quem lidera o que o filme trata como um “bunker de afeição” — uma comunidade improvisada de perseguidos pelo regime que encontram, uns nos outros, proteção e humanidade.

O outro destaque é Udo Kier, ator alemão que já havia trabalhado com Kleber em Bacurau. Desta vez, ele interpreta um alfaiate judeu e sobrevivente do Holocausto que vive no Recife — personagem para o qual o diretor escreveu uma cena especialmente. Sua presença funciona como lembrança viva de como os sobreviventes “portam o testemunho” da história: um eco europeu do trauma que ressoa com o brasileiro.

Este trabalho minucioso de escalação rendeu ao filme uma indicação na categoria de Melhor Direção de Elenco no Oscar 2026 — reconhecimento inédito para o cinema nacional.

O caminho até Los Angeles: prêmios e consagração

A trajetória internacional de “O Agente Secreto” começou com força máxima. Em Cannes 2025, o filme recebeu 13 minutos de ovação e saiu com dois prêmios: Melhor Direção para Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator para Wagner Moura. O crítico Jacques Mandelbaum, do Le Monde, foi categórico: chamou o filme de “obra-prima e marco na história do cinema brasileiro” e um “thriller carnavalesco e magistral”.

De Cannes em diante, o reconhecimento não parou. O Globo de Ouro 2026 trouxe duas estatuetas — Melhor Filme em Língua Estrangeira e Melhor Ator em Drama para Moura. O Critics Choice Awards e o Independent Spirit Awards seguiram com vitórias em Melhor Filme Internacional. O Satellite Awards premiou tanto o filme quanto o ator. No acumulado, são conquistas que constroem o argumento mais poderoso que um filme pode levar ao Oscar: momentum.

O resultado comercial acompanha o prestígio crítico. Com 350 mil espectadores apenas no fim de semana de estreia no Brasil e mais de 6,3 milhões de dólares arrecadados na Europa antes mesmo de chegar ao streaming, “O Agente Secreto” provou que o cinema de memória e resistência pode também ser cinema de público.

Neste domingo, 15 de março, Los Angeles vai descobrir se ele também pode ser cinema de estatueta. 🎬

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