Pela primeira vez na história do cinema nacional, o Brasil chega à cerimônia do Oscar não apenas para participar, mas para disputar de igual para igual com os maiores do mundo. Neste domingo, 15 de março de 2026, o Dolby Theatre, em Los Angeles (EUA), será palco de um momento que a cultura brasileira esperou décadas para viver: cinco indicações na 98ª edição do Academy Awards, com o thriller político “O Agente Secreto” concorrendo a Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Filme Internacional e Melhor Elenco (nova categoria), um feito inédito na história do país. E ainda tem o diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso concorrendo ao Oscar de Melhor Fotografia pelo filme norte-americano “Sonhos de Trem”.
Cinco indicações. O número pode parecer simples, mas carrega o peso de uma conquista histórica. É a primeira vez que o Brasil emplacou, simultaneamente, um filme na categoria principal de Melhor Filme e um ator brasileiro concorrendo ao prêmio de Melhor Ator — Wagner Moura, que se torna o primeiro representante do país a chegar a essa lista.
O diretor Kleber Mendonça Filho não escondeu a emoção ao descrever o momento da divulgação das indicações: “Senti uma atmosfera de Copa do Mundo… quando foi mencionado O Agente Secreto a primeira vez, houve uma sensação de gol.” Não é exagero. O filme chegou ao Oscar 2026 acumulando 98% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios da crítica internacional: a Variety o chamou de “deslumbrante drama de época”, enquanto o The Hollywood Reporter usou “magistral thriller político”.
Ambientado no Recife de 1977, durante os anos mais sombrios da ditadura militar, “O Agente Secreto” é um filme que usa o suspense do cinema de gênero para falar de algo muito maior: a resistência, o silêncio forçado e a brutalidade de um Estado que caçava seus próprios cidadãos. Marcelo — professor universitário interpretado por Wagner Moura — foge de São Paulo em busca do filho e se vê preso em uma teia de vigilância e paranoia que não lhe dá saída.
O longa concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Direção de Elenco — esta última, uma categoria que faz sua estreia histórica no Oscar 2026. Ao garantir uma vaga entre os indicados a Melhor Filme, Mendonça Filho fez o que poucos cineastas estrangeiros conseguem: furou a bolha do cinema internacional e foi reconhecido pela Academia como um dos melhores filmes do ano, em qualquer idioma.
As expectativas são altas, mas a disputa não será fácil. Na categoria principal, o The Hollywood Reporter aponta “Uma Batalha Após a Outra” como favorito, avaliando que uma vitória brasileira no estilo “Parasita”, quando um filme estrangeiro levou o prêmio máximo em 2020, seria um resultado difícil, ainda que não impossível. Já em Melhor Filme Internacional, o editor Clayton Davis, da Variety, coloca “O Agente Secreto” no topo de seus favoritos, mas prevê uma batalha acirrada com o norueguês “Valor Sentimental”. O favoritismo brasileiro nessa categoria é real, mas não está dado.
Depois de uma década consolidando carreira em Hollywood, de Pablo Escobar a heróis de ficção científica, Wagner Moura voltou ao cinema brasileiro para entregar o que a crítica já descreve como sua melhor atuação. E o fez em português. O detalhe não é pequeno para o próprio ator.
“Fico bem feliz de ser considerado… Mas por esse, por falar em português… É alegria dobrada!”, disse Moura ao comemorar a indicação. Ele chega ao Oscar 2026 impulsionado por uma sequência de vitórias impressionante: o Globo de Ouro de Melhor Ator em Filme de Drama, o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e o Satellite Awards na mesma categoria. A disputa promete ser a mais acirrada da noite, com Moura enfrentando nomes como Timothée Chalamet e Michael B. Jordan, e, segundo o THR, mantendo chances de surpreender os favoritos.
Mas além do favoritismo técnico, há uma dimensão quase filosófica no que Moura enxerga em seu personagem. “É um personagem que é punido não por seus defeitos, mas por suas qualidades”, reflete o ator baiano. Para Moura, o reconhecimento global do filme não é só uma conquista cinematográfica, é um ato de memória coletiva. “Acho que isso tem uma importância grande na geração de identidade, no entendimento do que é o Brasil, com sua complexidade, suas belezas e suas tragédias.”
A força do Brasil neste Oscar 2026 não se limita a uma única obra. Enquanto “O Agente Secreto” domina as categorias de prestígio, o paulistano Adolpho Veloso, diretor de fotografia que construiu sua carreira entre o Brasil e as grandes produções internacionais, prova que o talento técnico nacional também chegou ao topo. Ele se torna o primeiro diretor de fotografia brasileiro indicado ao Oscar, pelo seu trabalho no filme norte-americano “Sonhos de Trem” (“Train Dreams”).
A escolha estética de Veloso é tão marcante quanto o resultado visual: o filme foi rodado com 99% de luz natural, com cenas noturnas iluminadas apenas por fogo e velas reais. Ele descreve a experiência como um trabalho “orgânico” e “feito à mão”, um contraponto artesanal à frieza digital de grande parte do cinema contemporâneo. O estilo chamou tanto a atenção que Veloso já virou uma pequena celebridade nos círculos de premiações: nos palcos do Critics Choice e do Spirit Awards, o fotógrafo, que é corinthiano, arrancou risadas e aplausos com seu já icônico grito de agradecimento: “Vai, Corinthians!”
Para quem quer entrar no clima do Oscar 2026 e arriscar palpites, os dois filmes estão acessíveis tanto nas telas grandes quanto no streaming:
“O Agente Secreto” segue em cartaz nos principais complexos de Campinas: Cinemark Iguatemi, Cinépolis Galleria e Kinoplex D. Pedro, e já está disponível para assinantes da Netflix.
“Sonhos de Trem”, por sua vez, pode ser visto exclusivamente no catálogo da Netflix.
A 98ª edição do Oscar 2026 acontece neste domingo, 15 de março de 2026, a partir das 22h (horário de Brasília). A transmissão ao vivo estará disponível pelos canais TNT, pela plataforma Max e na TV aberta pela Rede Globo.
Newsletter:
© 2010-2026 Todos os direitos reservados - por Ideia74