Fotos - crédito: Netflix, divulgação / Acervo pessoal de Adolpho Veloso

Cinema

Adolpho Veloso: o paulistano que pinta com luz natural e disputa o Oscar de Fotografia

13 de março de 2026

Enquanto o Brasil torce por Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, um segundo brasileiro avança silenciosamente rumo à estatueta — e sua arma é a luz do sol, o tremular de velas e um olhar treinado para encontrar poesia onde outros enxergam apenas paisagem. O paulistano Adolpho Veloso, de 36 anos, é o primeiro diretor de fotografia brasileiro indicado ao Oscar e chega ao Dolby Theatre neste domingo como um dos grandes favoritos da noite por seu trabalho em “Sonhos de Trem”.

O que faz um diretor de fotografia?

Antes de falar sobre Veloso, vale um segundo para entender o que está em jogo. Num filme, o diretor conta a história com palavras e atores. O diretor de fotografia conta a mesma história com luz, sombra, cor e enquadramento — é ele quem decide o que você vê, como vê, e o que sente ao ver. É, em suma, o pintor do cinema. E Adolpho Veloso pinta, preferencialmente, com luz natural.

De São Paulo a Lisboa, passando por Hollywood

Foto – crédito: divulgação

Nascido em São Paulo em uma família de origem mineira — sua mãe e irmã são de Minas Gerais, e grande parte da família ainda vive no estado —, Veloso decidiu seguir o cinema aos 12 anos depois de assistir a “Laranja Mecânica”. Formou-se em Cinema pela FAAP e ainda cursou um ano de Filosofia na USP, nas aulas de Marilena Chauí, experiência que considera fundamental para sua formação como artista e ser humano.

Começou como quase todo grande fotógrafo começa: fazendo de tudo. Estagiário, assistente de produção, assistente de direção. “Eu sempre achei que o set é uma aula”, resume. Sua estética foi lapidada na publicidade, em curtas-metragens e videoclipes para artistas como Pabllo Vittar e Gloria Groove, antes de assinar longas nacionais como “Rodantes” e o documentário “On Yoga: Arquitetura da Paz”.

A virada internacional veio pela parceria com o diretor norte-americano Clint Bentley no drama independente “Jockey” (2021). O sucesso da dupla abriu as portas de Hollywood — e “Sonhos de Trem” foi o resultado dessa confiança renovada. Hoje, Veloso vive em Lisboa, base estratégica que ele escolheu para facilitar a logística das produções internacionais, mas sem jamais cortar o cordão com o Brasil — como provam os gritos de “Vai, Corinthians!” que já viraram marca registrada nos palcos das premiações internacionais.

“Sonhos de Trem”: quando a natureza vira personagem

Foto – crédito: divulgação

“Sonhos de Trem” (“Train Dreams”) é um filme que poderia ter sido filmado de muitas maneiras. A história do lenhador Robert Grainier (Joel Edgerton), vivendo em isolamento nas florestas do Noroeste dos Estados Unidos no início do século XX, pedia vastidão, solidão e uma beleza que não fosse fabricada. Veloso entendeu o recado — e fez uma aposta radical.

O filme foi rodado com 99% de luz natural. Nenhum holofote artificial, nenhuma luz postiça para suavizar o que a natureza oferecia. Para as cenas noturnas, a iluminação veio apenas de fogo e velas reais — chamas vivas que pulsam de forma imprevisível e conferem às cenas uma atmosfera que nenhum equipamento de estúdio consegue replicar. “Nada supera uma locação real com luz natural na hora certa… se você tem essa combinação, acho que não interferir é a coisa mais sábia a se fazer”, explica o fotógrafo.

A escolha técnica também passou pelas lentes. Durante o dia, Veloso usou lentes Kowa Cine Prominar Spherical, valorizadas pela textura orgânica e pelos reflexos solares que criam. À noite, trocou para um conjunto antigo de Zeiss Super Speeds, mais sensíveis à luz tênue das chamas. A câmera principal foi a Arri Alexa 35, escolhida por seu alto alcance dinâmico — a capacidade de registrar tanto as sombras profundas quanto as altas luzes sem perder detalhes.

Há ainda uma decisão estética que poucos espectadores percebem conscientemente, mas que todos sentem: o filme foi enquadrado no formato 3:2, o mesmo das fotografias antigas reveladas em papel. A escolha não é nostálgia decorativa — é uma declaração de intenção. O espectador mergulha na história de Grainier como quem folheia uma caixa de fotos de família, com aquela sensação de estar acessando memórias que não são suas, mas que reconhece como verdadeiras.

O resultado é o que a Variety descreveu como imagens “exuberantes” que persistem na memória muito após o fim dos créditos, e o que o The Hollywood Reporter chamou de “vitalidade cinematográfica” a serviço da prosa do escritor Denis Johnson. Para Veloso, a filosofia é simples: “As decisões técnicas nascem muito mais da escuta do que de imposição. Eu preciso entender o que a cena quer, o que o personagem está sentindo.”

Ele vai além na metáfora: compara filmes hiperprocessados a alimentos ultraprocessados — eficientes, mas sem sabor verdadeiro. O cinema que defende é “feito à mão” e “orgânico”, onde a técnica serve a emoção, nunca o contrário.

O favorito que bateu os veteranos de Hollywood

Veloso não chegou ao Oscar pela porta dos fundos. Ele entrou pela frente, derrubando veteranos de Hollywood um a um ao longo da temporada de premiações. Venceu o Critics Choice Awards 2026, o Independent Spirit Awards, o Satellite Awards e o prestigioso prêmio da Los Angeles Film Critics Association (LAFCA). Recebeu ainda indicações ao BAFTA e à American Society of Cinematographers (ASC) — a associação que reúne a elite da fotografia mundial.

Foi no palco do Spirit Awards que seu compatriota Wagner Moura lhe entregou o prêmio com palavras que resumem o que Veloso faz: um grande diretor de fotografia, disse Moura, é aquele que encontra “poesia nas sombras e violência na luz”, moldando não apenas o que vemos, mas como sentimos e nos lembramos de uma obra.

Sua principal concorrente ao Oscar é a norte-americana Autumn Durald Arkapaw, indicada por “Pecadores” — cuja vitória também seria histórica, por ser a primeira mulher a vencer na categoria. A disputa é acirrada e justa. Mas a consistência de Veloso ao longo de toda a temporada o mantém no topo das previsões da Variety.

Vale registrar: ele é apenas o segundo profissional lusófono indicado ao Oscar na categoria, após as indicações de Eduardo Serra em 1997 e 2007 — dado que sublinha o quanto essa conquista é rara e o quanto ela ressoa além das fronteiras brasileiras.

Onde ver

Sonhos de Trem está disponível no catálogo da Netflix. Vale assistir antes do domingo — e prestar atenção especial às cenas ao anoitecer, quando a luz dourada das últimas horas do dia transforma paisagem em sentimento. É lá que o talento de Adolpho Veloso aparece em toda a sua extensão. 🎬

 

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