Cinema

As verdades sobre o alcoolismo no filme “O Beco do Pesadelo” (2022)

2 de março de 2022

(*) Por Rebecca Ferreira Carvalho

O conhecido e estimado diretor Guilherme del Toro (“Labirinto do Fauno” e “A Forma d’Água”) traz vida ao livro de William Linday Gresham. Em 1947 houve uma primeira adaptação da publicação para o cinema chamado “O Beco das Almas Perdidas”, mas o diretor garante que o filme “O Beco do Pesadelo” (2022)  não é um remake e, sim, uma nova adaptação do romance.

O filme está concorrendo ao Oscar em três categorias: Melhor filme, Melhor Design de Produção e Melhor Figurino.

Acompanhamos um ambicioso trabalhador de um parque de diversões itinerante chamado Stan. Ele manipula as pessoas ao perceber uma oportunidade de sucesso com a técnica do mentalismo. O encontro inesperado com uma psicóloga começa a acarretar problemas e artimanhas maiores do que ele esperava. O longa possui um elenco que inclui Bradley Cooper, Cate Blanchett, Rooney Mara, Toni Collette, David Strathairn e Willem Dafoe.

Atenção: spoilers a seguir

O filme é percorrido em diferentes composições que se entrelaçam com a vivência do personagem principal em seu trabalho no circo e ao mesmo tempo as memórias da morte de seu pai. A medida que o personagem vai se mostrando na tela em seu trabalho circense, mais vamos entendendo as tramas que cercam o relacionamento de Stan com seu pai.

Dentro da composição do circo observamos as mais diversas atrações e enganações. A que mais chama a atenção de Stan em um primeiro momento é a do Selvagem. Um homem que ao chegar ao fim do poço não é mais comparado a “humano”, tratando-o como um monstro.

Cercados de obsessão, remorso, cobiça e ressentimento, o filme nos faz refletir sobre as mais diversas e perversas atrocidades humanas e, acima de tudo, a essência do desespero humano.

As verdades sobre o alcoolismo

O autor disse em entrevista que a ideia do livro veio da conversa com um homem. Ele lhe contou sobre um alcoólatra que, para sustentar seu vício, mordia e arrancava cabeças de galinhas em um circo itinerante. O autor tinha 29 anos quando ouviu a história. Esta história o aterrorizou e o assombrou por muitos anos até que finalmente ele a escreveu para tentar se livrar dela.

De fato, não é uma história que podemos achar normal (ou não deveríamos achar). Sensibilizar e se aterrorizar é o mínimo humano que podemos sentir sobre alguém que chegou nesta situação. O mais terrível é que esta história ilustra a difícil realidade de muitos alcoólatras e seus familiares até os dias de hoje.

O alcoolismo é uma doença crônica, que une aspectos comportamentais e socioeconômicos relacionados ao consumo compulsivo de álcool. O usuário se torna, progressivamente, tolerante à intoxicação produzida pela droga e desenvolve sinais e sintomas de abstinência, quando a mesma é retirada.
A doença afeta as pessoas que bebem e também suas famílias. Observamos claramente no filme como isso ocorre. O personagem principal sofreu com o pai alcoólatra, assim como a cartomante Zeena (Toni Collette) que padece com a perda de seu esposo.

Em 2019, o Relatório Mundial sobre drogas evidenciou que 35 milhões de pessoas, em todo o mundo, possuem transtornos por uso de substâncias psicoativas e necessitam de tratamento. No Brasil, o uso de álcool e outras substâncias estão entre os principais fatores de risco para a morte ou incapacidade. Além disso, o consumo de álcool é um fator que contribui para mais de 300 mil (5,5% do total) mortes anualmente nas Américas.
Podemos correlacionar essas informações do uso do álcool com o filme em diversas camadas inclusive se pensarmos como podemos ajudar a salvar as pessoas.

Para salvarmos vidas, precisamos reduzir a carga causada pelo uso nocivo do álcool, prevenindo lesões e doenças e melhorando o bem-estar dos indivíduos, das comunidades e da sociedade em geral. Para isso é necessário enfatizar o desenvolvimento, a implementação e a avaliação de intervenções diversas voltadas para o uso nocivo do álcool e a dependência do álcool e suas consequências sanitárias e sociais. Essas intervenções devem percorrer todos os níveis e esferas assim como as mais diversas idades.

Mas e aí?

Confesso que por ser uma grande fã dos filmes de Del Toro senti falta de muito elementos do terror que o diretor no geral produz. O filme fica levemente arrastado. Se você está esperando que apareça aquela tonalidade mais obscura do diretor como em “O Labirinto do Fauno” e até “A Forma d’Água” talvez não goste muito do filme. Esses momentos obscuros são mais raros, pois o diretor tenta focar em outros fatores.

Se partirmos de uma ideia de tentar, o interessante talvez seja ver o filme sem pensar no diretor que o produziu.

Porém, o filme nos ajuda a refletir e a pensar sobre as necessidades de se falar e debater sobre o alcoolismo. Essas reflexões são extremamente pertinentes e fundamentais dentro da psicologia e da sociedade no geral.

Nota: 6/10

Referências:

Filme: “Nightmare Alley” (Tradução Brasilieira: “O Beco do Pesadelo). Direção: Guilherme del Toro. Roteiro: Kim Morgan e Guilherme del Toro. Atores: Bradley Cooper, Cate Blanchett, Toni Collette, Willem Dafoe, Richard Jenkins, Rooney Mara, Ron Perlman. 2021

PADRÃO, Maria Regina Araújo de Vasconcelos et al. Educação entre pares: protagonismo juvenil na abordagem preventiva de álcool e outras drogas. Ciênc. Saúde Colet. 26 (07) Jul-2021. Disponível no link.

OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) da OMS (Organização Mundial da Saúde). “Cerca de 85 mil mortes a cada ano são 100% atribuídas ao consumo de álcool nas Américas, constata estudo da OPAS/OMS”. Disponível no link.

OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) da OMS (Organização Mundial da Saúde). “Álcool” Disponível no link.

Rebecca Ferreira Carvalho é psicóloga com especialização em “Psicanálise e contos de fadas”. É mestranda em psicologia pela PUC-Campinas. Apaixonada por filmes, séries, jogos e animes. Escreve sobre como essas mídias se entrelaçam com nossa vida e psiquê.

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