A jornalista e a cidade

Essa coisa do forró que mexe com a gente

por Sara Silva
Publicado em 4 de julho de 2026

Talvez eu nunca tenha experimentado antes apropriadamente essa “droga”. E olha que Campinas tem uma cena forte nesse universo há anos, desde os tempos da Cooperativa Brasil (quem lembra?). O fato é que uma série de fatores aparentemente aleatórios (só aparentemente!) me levou a cair recentemente numa festa junina e, quando eu vi, ainda que meio tímida, estava contagiada.

Pra quem não sabe dançar forró, aqueles passos cheios de voltas e giros são um pouco intimidantes. Fico me sentindo um pouco à margem, apenas observando os casais evoluírem de um jeito desenvolto que não parece ser possível pra mim que sequer tenho um par à disposição. Mas ao mesmo tempo aquela música vai tomando conta do meu corpo de uma maneira difícil de explicar (mas não tem a menor necessidade). Conheço quase todas.

Um amigo me chama pra dançar e eu vou descobrindo mais dessa arte. Fico sabendo que são os homens que conduzem os passos no forró. Em primeiro momento, me soa um pouco antiquado (não que eu goste de controle, imagina…), mas ao mesmo tempo prefiro ser conduzida e só seguir alguém que sabe mais do que eu. Mais tarde pesquiso rapidamente e descubro que, de fato, no forró contemporâneo, a dança é mais livre e igualitária. No momento, eu só ouço e tento acompanhar. É o que ele me ensina: não é pra pensar. Sempre gosto desse desafio.

Também me encanta saber que o que vale é a troca de energia. Olha que demais: basta se deixar levar pelo movimento, sem racionalizar, só seguir o ritmo e se alinhar com o parceiro ou parceira e deixar fluir. Pura poesia. E colocada à prova: tentei pensar no que estava fazendo por, sei lá, três vezes, e desandei o passo.

Começo me soltar. Acho curioso deixar o par e ele ir dançar com outras pessoas enquanto fico lá querendo mais da experiência. Mas de repente começa uma outra música e simplesmente olho do lado e vejo as outras pessoas na mesma ‘vibe’. E elas também me olham, e quando os olhares se cruzam, basta sinalizar do tipo “vamos?”. E a pessoa responde “vamos!”, e aí ele vem, me pega pela mão e me arrasta pra essa coisa deliciosa que se desenrola em um balé não ensaiado, apenas intuitivo (pelo menos para mim), mas perfeitamente sincronizado a um ritmo que nos atravessa de um jeito inexplicável.

Alguém se identifica como “forrozeiro” não cursado. E eu sigo aprendendo nesse encontro de corpos em movimento de um jeito que é impossível não me afetar. E quando eu vejo, na próxima música, sou eu que já estou convidando outros parceiros para seguir nesse ritmo sem me ‘avexar’.

E é essa disponibilidade tão genuína de cada “forrozeiro” e “forrozeira” que me surpreende e me emociona. E me pergunto: como não me atrevi nisso antes?

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PS – Semanas depois que escrevi esse texto recebo de um ‘forrozeiro’ que encontrei em recente ‘arrasta-pé’ (obrigada pela dica, Fábio Gomes!) um vídeo com a linda e profunda reflexão do colunista da Folha de S. Paulo Michael França sobre o contexto da origem do forró, essa rica arte nordestina, e seus ensinamentos, como ele aponta. Uma alegria que nasce da escassez. E que exige troca, confiança, uma lição em tempos “de muita conexão, mas nem tanto de encontros.”. Uma visão até meio psicanalítica (estudando psicanálise, sempre acho tudo meio psicanalítico…): “não esperar que a vida fique perfeita, ela nunca estará..” Somos seres faltantes… . Um sopro de lirismo, como a flor que brota do concreto desses nossos tempos líquidos. Assista ao vídeo dele no Instagram.

Algumas dicas de lugares para dançar forró em Campinas:

@brasucamulticultural (sextas e domingos)
@projetoescutaocheiro (todo primeiro domingo do mês)
@lagoadeck (às quintas)
@embrev (às terças)

Foto acima gerada por IA

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