Pensar Psicanalítico

Desistir também é uma opção

por Vagner Couto
Publicado em 31 de dezembro de 2025

Vou na contramão dos coachings de plantão, e forjo aqui meu próprio adágio pra enfrentar normas dos manuais do nosso tempo tão cheio de discursos de resiliência, heroísmo e superação.

 

Não é só acumular mais desejos. É também liberar espaço, liberar peso, ficar mais leve. Além das coisas novas e grandiosas que queremos viver no ano novo, também podemos nos reconhecer enganados ou desenganados e desistir de uma busca, de uma profissão, de um cargo, e buscar viver o que quer que seja que nos faça mais sentido e que sintamos ser mais acertado.

 

Podemos desistir de ser aceitos pelos nossos desiguais, de ser compreendidos pelos que não nos compreendem, de ser queridos pelos que não nos querem, de ser reconhecido por quem sequer nos conhece, de mudar a opinião que difere da nossa, de querer o que é desnecessário. E podemos desistir de plantar na terra seca e árida, desistir de uma relação que é só conflito e/ou desencontro, desistir de um objetivo que grita ser inviável.

 

Desistir, no mais das vezes, é o abrir mão de uma opinião, de um olhar, e desapegar, modificar a essência de um desejo, largar a semente que já esturricou, deixar a velha casca do que já está morto e se abrir a uma nova possibilidade.

 

A expressão “Desistir não é uma opção”, tão na onda ultimamente em contextos de autoajuda e de coaching, lema muito repetido no LinkedIn, Facebook ou Instagram, quer transmitir uma atitude de determinação e resiliência, mas, muitas vezes, é apenas uma obstinação cega, orgulhosa ou narcisista diante de desafios ou obstáculos.

 

Diferente do que a cultura da hiper produtividade e desempenho demandam – saber aguentar pressão e cumprir metas – renunciar, desistir, pode ser um ato de coragem, de autoconhecimento e de transformação. Uma pessoa pode apertar o botão vermelho e sair do Big Brother da vida, sim, sair do reality show sem que isso se constitua em um fracasso ou uma impropriedade. Desistir pode ser um ato de humildade que amplia as possibilidades ao transcorrer da vida.

 

Levantar questionamentos sobre os próprios desejos e escolhas é essencial na formação de um ser humano mais consciente. E desistir, conscientemente, da persistência teimosa e tóxica pode ser libertador e promotor de evolução. Permanecer num objetivo é muitas vezes um tipo de coerção psíquica a que uma pessoa se submete socialmente ou profissionalmente, que demanda mais do que podemos ou queremos entregar.

 

Não é por pouco que se promove o conceito de “resiliência”, que, em física, é a propriedade que materiais têm de voltar à forma anterior depois de passar por alterações elásticas. Nos últimos anos, o sentido dessa palavra foi adaptado pro o contexto da capacidade das pessoas aguentarem, ou se adaptarem, a impactos ou mudanças, principalmente negativos, que as pressionam ou distorcem. Assim, aguentar e não desistir é não permitir a vulnerabilidade, não se permitir a maturidade e as revisões que ela traz.

 

Reis já desistiram de ser reis, já abdicaram em nome de um amor ou em nome do que era melhor pra seu povo. Grandes atletas já desistiram de um esporte e foram se reencontrar em outro. Grandes profissionais já desistiram e mudaram de carreira. Pessoas extraordinárias já se reconstruíram em outros relacionamentos.

 

Desistir é um ato complexo, profundo, que envolve autoconhecimento, discernimento e coragem, podendo ser um sinal de força e sabedoria pra preservar nossa integridade e abrir espaço pro novo num lugar de nós onde só haviam desejos acumulados, sobreposto, enroscados. Desistir pode ser parar de “dar murro em ponta de faca”, de insistir em algo inútil ou de lutar por uma causa perdida. É possível desistir de um sonho exageradamente idealizado, de um querer mal gestado e de coisas que não nos pertencem mais. Desistir de um desejo que angustia e viver com mais paz e dignidade.

 

Desistir não é inerentemente ruim – desde que não se desista de Si, do Caminho, da Luz e da própria Evolução – que é o que podemos fazer pra receber aquilo que é nosso conforme o Sol de cada dia.

 

COMO LIDAR COM TUDO ISSO?

Psicanálise, terapia, autoconhecimento – algo assim. Para falar particularmente com o autor, use: 19 99760 0201 [zap] ou [email protected]

Pra saber mais sobre Vagner Couto, psicanalista, clique no link

https://www.facebook.com/share/p/1DhoGVAT6D/

 

Compartilhe

Newsletter:

© 2010-2026 Todos os direitos reservados - por Ideia74