Fim dos Créditos

A relação espectador-cinema

por João Felipe
Publicado em 20 de fevereiro de 2026

Após mais uma edição da Semana do Cinema – a 8ª desde a pandemia – consolidada pelos preços promocionais de ingressos aplicados por redes conhecidas em território nacional, é possível observar que até agora esta prática tem sido recebida com um aumento no número de espectadores, ou seja, há engajamento na população.

Entretanto, como já abordei em meu texto sobre o Oscar e o cinema nacional, há muitos fatores a serem considerados dentro desta relação espectador e salas de cinema. O cenário atual demanda uma análise de empecilhos, costumes, investimentos e principalmente a situação econômica-social de nosso país. Acho válido argumentar sobre isso dentro deste espaço. 

O ATO DE IR AO CINEMA 

Tomar a decisão de ir assistir um filme passa por algumas etapas em relação a logística de se locomover até o espaço físico para enfim ter o consumo daquilo que quer.

Primeiramente é preciso considerar que o preço dos ingressos não é barato, exceto quando há uma promoção em vigor, como por exemplo a própria Semana do Cinema. É importante salientar que, na maioria dos casos, este preço parte de uma realidade de duas ou mais pessoas, um casal ou família. Nesses casos os preços já se iniciam, pelo menos, em dobro.

Hoje, as principais redes como Cinemark, Kinoplex, UCI, Cinépolis, entre outras, estão presentes em shopping centers. Então, dentro deste cálculo adiciona-se o extra do estacionamento, aquelas compras que podem ocorrer em um possível passeio pelos corredores, seja antes ou depois, o lanche que será consumido, aquela sobremesa da loja tal… Enfim, são gastos que se adicionam a experiência de se dirigir até o cinema justamente pela sua questão de localização. São escassas as cidades que oferecem a opção do saudoso cinema de rua, porque estes já não conseguem se sustentar como antigamente. Os multiplex não retiram o seu lucro do preço do ingresso, mas sim do que se vende nas bombonières. É aqui onde vai se pagar aluguel, funcionários, gastos, manutenção etc.

Ainda dentro deste quesito, é possível debater uma certa imposição da sessão de um filme voltado para o fator mais psicológico da pessoa enquanto não detentora do controle sobre esta experiência. Em outras palavras, o cinema, de certo modo, não respeita o seu consumidor. Diferente de uma tarde deitado no sofá e, com o controle na mão você define a que horas vai assistir, a sessão do filme “x” tem uma hora específica de início e ela irá começar com ou sem você, e aquelas duas horas irão correr ininterruptamente, sem pausas para o banheiro ou lanchinho. É você quem se adequa a ela. 

CONCORRÊNCIA E ACESSO 

Dentro de um shopping, o cinema concorre diretamente com lojas e áreas infantis. Raramente a ida ao cinema é uma atividade isolada, ela se atrela a outras distrações e, por vezes, acaba sendo descartada em favor de conveniências mais imediatas.

Somado a isso, há um abismo geográfico. Segundo a revista Piauí, em 2023, 40% da população brasileira vivia em municípios sem nenhuma sala de exibição. A ausência de salas impede a criação de um vínculo habitual. Ainda assim, é interessante observar o sucesso de exibições especiais em locais improvisados nesses municípios, provando que o interesse existe sim, mas a infraestrutura não. 

SERVIÇOS DE STREAMING

E aqui chegamos ao grande embate que as salas exibidoras têm a sua frente em um século XXI de avanços tecnológicos dinâmicos, ferramentas complexas com maior facilidade de acesso e a questão do calendário de exibição de um filme em cartaz em relação a sua chegada na casa das pessoas.

O período da pandemia trouxe um aumento considerável no consumo de serviços de streaming dos mais diferentes segmentos. E a indústria cinematográfica está entre eles. Se antes a Netflix reinava sozinha, esse foi o período de novos concorrentes chegarem em campo, oferecendo preços distintos, benefícios exclusivos e uma variedade quase que interminável de conteúdo. Tudo isso na palma da mão.

A facilidade de ter um catálogo com inúmeras opções a poucos cliques no controle, deitado em seu sofá ou cadeira, podendo pausar, continuar, usar o celular a vontade, conversar é extremamente atrativo para o grande público. Filmes, séries, documentários, shows, realities. E mesmo após a pandemia os cinemas sofreram muito com a volta das pessoas as salas, foi daí que nasceram as semanas promocionais e benefícios em parceria com outras empresas na compra de ingressos e lanches. Tudo pensado para reconquistar o público perdido.

Quem também entrou neste embate foram as próprias empresas exibidoras, com a preocupação nas janelas de programação que seus filmes têm até chegar aos streamings. É uma questão atual, que se mostra as vezes menos lucrativo lançar um filme em cartaz, fazendo com que as opções nos cinemas sejam menores e mais pensadas sob uma ótica exclusivamente comercial.

Neste conflito streaming x cinema”, entra em voga uma discussão um pouco mais qualitativa. Se observarmos os catálogos e as dinâmicas de lançamentos, é perceptível um alto número de produtos novos toda semana. E aqui me refiro a produtos, já adiantando minha visão, pois os conteúdos são produzidos tendo como principal objetivo a venda e a permanência do cliente com uma assinatura ativa. Ou seja, alimentar o prato com a comida preferida, sempre. Com isso, os projetos precisam atender os interesses de uma certa demanda definida pelos algoritmos. Qual o gênero preferido? Qual a duração razoável? Violência ou afeto? Apelo sexual ou não? Esse ou aquele ator? Tudo se transforma em um produto que precisa ser o ideal para determinada clientela. E quando se chega a esse ponto, a arte perde seu total valor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Enfrentar as adversidades para assistir um filme que não seja em casa, na sua TV, em seu serviço favorito demanda esforço, tempo e custo. Entretanto, não há experiência que se assemelhe a observar por algumas horas imagens em movimentos na tela grande. É um ganho, sendo um bom ou péssimo filme, mas um enriquecimento de ideias, questionamentos, visões, cultura. Compartilhar um espaço com pessoas desconhecidas, que estão ali por um mesmo motivo, onde você é apenas mais um enquanto o que realmente importa passa diante dos seus olhos pode ser extremamente proveitoso. Sair, vivenciar, se divertir, rir, chorar, ter seus medos expostos, tudo isso pode ser vivido em uma simples sessão.

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