Fim dos Créditos

“2001: Uma Odisseia no Espaço” | O concerto espacial regido pelo vazio da humanidade

por João Felipe
Publicado em 2 de outubro de 2026

Assisti pela primeira vez a ficção científica que muitos consideram ser uma das grandes influências no gênero e nas produções que viriam a surgir nas décadas seguintes ao seu lançamento, junto com o início do aparecimento dos blockbusters. Talvez o nome mais lembrado seja Star Wars.

Primeiramente é preciso dar um panorama da época. Os anos 1960 e 70 marcaram um passo importante dentro da indústria americana. O público-alvo dos cinemas estava em completa mudança, afetado principalmente pelo aumento no consumo das TVs, que já eram vistas como concorrentes desde a década de 1950. As salas foram conquistadas pelos jovens, que pouco se interessavam pela estética do realismo romântico fechado, vigente desde o fim da 1ª Guerra Mundial. Queriam algo mais libertador e sem censura. Foi em 1969 que o diretor Stanley Kubrick decidiu adaptar “2001: Uma Odisseia no Espaço”, obra literária de Arthur C. Clarke.

Desde o início o diretor está interessado em mostrar o tom grandioso tanto nos planos como na trilha sonora marcante de peças clássicas e orquestras. Através de um monolito faz uma ponte entre o passado de um grupo de primatas em busca de subsistência para sobreviver e o futuro abordado na trama. A transição feita a partir da fúria de uma primata que lançou um osso para o céu e nos transporta para o pano de fundo espacial, em que é possível observar uma nave em movimento, condensa em apenas um corte toda a história evolutiva da humanidade, assunto esse que parece intrigar o cineasta especialmente na construção das figuras humanas ali presentes.

Mas, antes, é preciso observar melhor a beleza das imagens que Kubrick faz de maneira tão impressionante, principalmente se olharmos para os efeitos técnicos utilizados, considerando o momento em que a era digital do cinema ainda levaria alguns anos para ser introduzida nas produções. O silêncio dos planos espaciais só aumenta o sentimento de vastidão e solidão de um universo infinito, onde as naves parecem performar um concerto de balé apoteótico. Lentamente, elas se deslocam em frente ao nada obscuro. Que não nos oferece um sentido direcional. Não se sabe para onde aquela civilização está mirando sua evolução. Kubrick parece limitar um futuro próximo sem sinalizar se todo aquele desenvolvimento é um progresso ou para onde nos carrega.

Aliado a isso, todo esse aparato tecnológico reflete diretamente na condição dos personagens daquela realidade. Se lembrarmos do contexto da época, a Guerra Fria colocou Estados Unidos x União Soviética em uma batalha de forças que visava a exploração espacial como atestado de potência. O homem chegaria à lua no mesmo ano. Diante disso, toda aquela mecanização e modernidade apresentada no filme parece retirar a humanização dos indivíduos. O tratamento entre as pessoas é de maneira robotizada, de falas e respostas pouco emotivas. Quando um pai liga para sua pequena filha que está na Terra, parece ser algo muito protocolar. Ao encontrar conhecidos que há muito tempo não se viam, o tempo controla a narrativa e o insere pressa e agilidade.

E essa remoção de sentimentos é que o filme irá contrapor-se à discussão sobre a inteligência artificial e sua inserção no cotidiano dos trabalhadores. Em tempos de discussão sobre a regulamentação desta ferramenta no cotidiano, “2001: Uma Odisseia no Espaço” se torna atual e apresenta uma voz robótica que durante toda a trama demonstra mais aproximação de um comportamento humano do que qualquer outro personagem.

Se não bastasse a viagem de táxi para a estação lunar, Kubrick reserva os 30 minutos finais para criar algo mais experimental em seu filme, na tentativa de uma linguagem abstrata que se iniciava no cinema americano e viria a ser o tom de muitos outros cineastas que alavancaram sua carreira na década de 1970, como Steven Spielberg, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Uma viagem lisérgica que retoma ao início de seu filme e mistura em completa liberdade a noção de tempo e espaço.

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