Por Ederson Rufato
Há mais de um ano, o mundo enfrenta a pandemia da Covid-19, a maior crise sanitária da história recente e o maior colapso sanitário e hospitalar do Brasil, de acordo com a Fiocruz. A população foi obrigada a se adaptar e adotar o confinamento em casa. Crianças e jovens passaram a estudar remotamente, enquanto muitos adultos, dependendo das atividades, passaram a trabalhar em home office. Os idosos, considerados o grupo de maior risco para a doença, foram obrigados a ficar longe de seus familiares e amigos. E um grupo que se mostrou também vulnerável diante da doença foi o das grávidas e puérperas (mães que acabaram de dar à luz).
Dados do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19 (OOBr COVID-19) mostram em sua última atualização, em 1º de maio, que desde o início da pandemia foram 10.818 casos de internações entre gestantes e puérperas, com 951 mortes.
Sendo um período muito esperado por várias mulheres e até a realização de um sonho, a maternidade se tornou um duplo desafio para as que tentam engravidar na atual conjuntura, para as grávidas, as puérperas e também para as mães mais experientes, que se viram diante de mais acúmulo de funções.
Para a terapeuta Cinthia Campos, o número de mulheres que precisa do apoio de profissionais para reajustarem os seus pontos de equilíbrio emocional e também de reconquistarem a sua segurança cresceu muito em seu consultório desde o início da pandemia. Algumas também estão vivenciando o sentimento de luto por perderem familiares e pessoas queridas pela Covid-19.
“Não recebi só as mães, mas as mulheres de uma forma geral. Estão confusas, pois estão vivenciando um momento novo, exaustivo, emotivo e ainda tendo que administrar seus lares, suas famílias, seus companheiros e suas atividades de trabalho”, relatou a terapeuta.
Um levantamento do Conselho Federal de Farmácia (CFF) apontou um aumento de 17% nas vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor desde o começo da pandemia. E de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres são o grupo mais vulnerável a problemas de saúde mental no período. Um estudo realizado com homens e mulheres em 2020 pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, as mais afetadas emocionalmente pela pandemia foram as mulheres, respondendo por 40,5% de sintomas de depressão, 34,9% de ansiedade e 37,3% de estresse. A pesquisa ouviu três mil voluntários em vários estados brasileiros.
Com o confinamento das pessoas em seus lares, o número de pessoas com depressão, ansiedade, pânico e baixa autoestima aumentou muito. “O consumo de calmantes e remédios para controle emocional estão tomando conta dessas mulheres, que não estão sabendo como lidar com esse cenário”, afirmou a terapeuta.
Mães x pandemia
Para a professora da rede pública de ensino Jaqueline Silva, de 32 anos, tem sido difícil enfrentar os últimos meses sozinha. A professora é mãe solteira e mora em Campinas apenas com os dois filhos, Pedro, de 8 anos, e Enzo, de 6, sem parentes morando por perto, e não tinha a quem recorrer. “Eu sentei com eles no sofá e conversei como se fossem adultos, eu precisava da ajuda dos dois porque, senão, eu não iria aguentar”, comentou. “Eu recorri ao uso de calmantes por conta do estresse e ansiedade depois que entramos na quarentena. O chá de camomila e suco de maracujá também passaram a ser grandes amigos meus”, disse.
Jaqueline conta que no começo da pandemia teve dias em que chorava à noite. O trabalho também passou a ser remoto. “Eram muitos programas de reunião que eu tive que aprender de uma hora para outra e isso me deixava muito ansiosa. Nós professores não tivemos ajuda do estado, eu, por exemplo, utilizo meu celular particular para responder dúvidas de pais até as 23h. Eu respondo porque eu também sou mãe e sei como está sendo difícil encontrar alguém que nos entende e nos ajude.”
O horário em que Jaqueline dá aulas é o mesmo horário em que seus filhos assistem as aulas, por isso precisou comprar mais um computador. “Pedro e Enzo ficam no mesmo quarto, cada um com seu fone. Eu fico no meu quarto dando as minhas aulas e no almoço a gente conversa como foram as aulas de cada um, se tiveram dúvidas, se gostaram, o que aprenderam e do que não gostaram”, explicou a professora, que ainda divide algumas tarefas domésticas mais simples com eles.

Foto: Ingrid, Everton, Bella e Breno/arquivo pessoal
Já Ingrid Ribeiro teve sua segunda filha, Bella, de um ano, em meio à pandemia. “Foi algo emocionante, mas também de muito medo. A Bella nasceu no começo da pandemia e foi muito difícil porque ninguém podia visitar a gente. Fazíamos chamada de vídeo para poder mostrá-la para a família”, disse. Ingrid também tem um filho de 10 anos, Breno. “Temos que entender que as crianças também precisam do tempo delas. Se acabar a aula e eu colocar o Breno para fazer as lições, ele fica muito estressado, além de não conseguir fazer. Eu deixo ele respirar um pouco e se distrair com algo que ele gosta de fazer e mais tarde ajudo com as lições, aí a coisa flui”, compartilhou.
Ela trabalha como gerente de monitoria de uma escola particular em Campinas e conta que, em virtude da pandemia, passou a trabalhar em casa. “O meu medo era ser dispensada depois que eu voltasse de licença-maternidade. O começo foi bem complicado, tanto que eu precisei da ajuda da minha mãe para ficar com a Bella enquanto eu entrava nas reuniões do trabalho, porque ela só chorava”, comentou. Ingrid é casada, mas o marido, Everton, passa muitas horas fora de casa por ser motorista de caminhão, por isso as tarefas domésticas são divididas entre ela, a mãe e o filho mais velho.

Foto: Dayane, Rodrigo e Felipe/arquivo pessoal
A auxiliar administrativa Dayanne Trevisan, mãe do Felipe, de 6 anos, relatou que precisou criar novas rotinas para tentar manter a vida o mais “normal” possível. “No meu caso, não precisei ficar em home office, mas tive que me organizar para dividir meu tempo no trabalho, com meu filho, marido, afazeres domésticos e até comigo mesma”, comentou. “Para mim, a palavra chave é organização, não é fácil, mas vida de mãe e dona de casa nunca foi”, comenta.
Ela destacou que a parte mais difícil da pandemia foi o fechamento repentino das escolas, não somente pela interação que seu filho tinha com os demais colegas, mas também no desdobramento de atenção para ajudá-lo nas tarefas escolares. O marido de Dayanne, Rodrigo, perdeu o emprego durante a pandemia em 2020, e desde então trabalhava em empregos temporários. Por conta disso, Felipe ficava com a avó, que o ajudava com as aulas on-line. “Antes da pandemia já tínhamos o hábito de fazer as atividades da escola em conjunto, pois é uma maneira de estarmos juntos. Mas com certeza ficou mais cansativo do que antes. Sem a ajuda direta dos professores e sem a estrutura de estar em uma sala de aula, é mais complicado fazer com que as crianças mantenham o foco”, argumentou. “Quem é pai e mãe vai entender que as crianças têm energia demais.”
Dicas para relaxar
A dica que a terapeuta Cinthia Campos dá para as mães e mulheres que estejam com sintomas de depressão, ansiedade ou com baixa autoestima é procurar fazer atividades físicas, meditação, reeducação alimentar e outras práticas que possam gerar bem-estar. “Dentro das possibilidades, é sempre bom procurar um profissional capacitado para amenizar o momento para não criar sequelas maiores no futuro. Lembrando sempre que tudo passa, mas deve ser enfrentado de forma adequada”, disse.
Uma das técnicas que a Cinthia utiliza em seu consultório com seus pacientes é chamada de ThetaHealing, que, junto com aromaterapia e cromoterapia, técnicas mais naturais, auxiliam no tratamento de cada paciente conforme os seus sintomas.
A mãe Dayanne conta que para não pensar muito na sobrecarga dos afazeres domésticos procura ocupar seu tempo livre fazendo algo que gosta. “Procuro manter o equilíbrio emocional me apegando em coisas que me fazem bem. Assistir uma boa série, ler um bom livro e sempre ser grata a Deus por estar bem em meio a todo caos que estamos vivendo”, disse. E também faz uma reflexão sobre se colocar no lugar do outro. “Ao meu ver, ter empatia é o que falta para muitos nesse momento delicado que estamos vivendo”, ressaltou.
Foto no alto: William Fortunato/Pexels (banco de imagem)
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