Foto: Tomá na Banda no Largo do Rosário 2025, com a presidente Ester Januário à frente. Crédito: Carlos Bassan / Prefeitura de Campinas (divulgação)
Havia uma quietude incômoda nas ruas de Campinas naquela madrugada de 1985. O tipo de silêncio que só se rompe quando alguém resolve fazer barulho de propósito. Foi o que aconteceu no Bar Ilustrada, no Cambuí, quando Camilo Chagas e um punhado de amigos decidiram que o Carnaval da cidade precisava de menos recato e mais rasgo. O nome do bloco, escolhido ali mesmo, entre copos e gargalhadas, veio com aquela ambiguidade marota que nunca sai de moda, uma alusão à antiga fama da cidade. Tomá na Banda. “Uma banda de duplo sentido”, brincou Chagas em entrevista no início dos anos 1990.
No primeiro desfile, quatro músicos da banda da PM foram contratados para dar alguma pompa ao cortejo. Saíram do bar, cortaram o Centro, e onde deveria haver curiosos, formou-se gente. Muita gente. Se em 2007 Camilo estimava duas mil pessoas atrás do bloco, em 2015 já eram mais de cinco mil. O crescimento não foi acidente: foi consequência de uma teimosia que entendeu, desde cedo, que Carnaval de rua não se faz com timidez.
Ao longo de quatro décadas, o Tomá amadureceu sem se endurecer. Passou a ter banda própria, a gravar CDs, a lançar sambas-enredo escolhidos por concurso. Marchinhas tradicionais se misturaram a composições autorais temperadas com sátira, aquele humor que só funciona quando vem da rua, não de cima dela. Visualmente, o bloco também construiu sua própria mitologia: em 1985, o publicitário Efrain desenhou a primeira marca; no ano seguinte, Guto criou o personagem do tocador de bumbo que, desde então, se desdobra em temas anuais. De “O mundo vai acabar em samba!” (2012) às comemorações de bodas de prata em 2010, o boneco segue ali, batucando.
A morte de Camilo, em março de 2015, poderia ter sido um ponto final. Não foi. Ester Januário, sua companheira, assumiu a presidência e manteve viva a essência do bloco ao lado de Pedro Chagas (vice-presidente, filho de Camilo e DJ AfroChag), Luiz Arkhan (comunicação) e Felipe Barra (arte). Camilo segue presidente in honoris causa, título que não é nostalgia, mas reconhecimento de que certas presenças não se aposentam.
Por quase 40 anos, o Centro de Convivência Cultural, no Cambuí, em frente ao Bar Ilustrada, foi a concentração, o ponto zero do Tomá na Banda. Ali se formava a massa crítica, ali se afinavam os instrumentos, ali começava o Carnaval. Mas em 2023, após dois anos de silêncio pandêmico e sob o argumento de obras de revitalização no CCC, o bloco foi deslocado para o Largo do Rosário, no Centro.
Em 2026, com a reabertura do CCC, havia a expectativa do bloco voltar a seu local tradicional, segundo a presidente Ester Januário. Ela informou que, apesar das tratativas com a Prefeitura, não veio a liberação para o retorno ao Cambuí.
“A expectativa nossa era grande, sim, em voltar para o Centro de Convivência, já que lá é nosso território, nossa tradição. Apesar de muita conversa, praticamente o ano todo, não foi liberado para que a gente fizesse nossa festa lá. Mas eu não perdi as esperanças. Espero que assim que terminar o Carnaval deste ano, já iniciar novamente a conversa com a secretaria de Cultura. Percebo que se a gente sair do nosso local a gente vai perdendo a nossa característica, a nossa tradição. E a gente precisa voltar. É um lugar onde a cultura é efervescente, no coração do Cambuí, no coração de Campinas. Ainda mais nosso evento que é tão familiar e tranquilo, então a gente pretende, sim, retomar”, afirma a presidente.
A secretaria de Cultura e Turismo de Campinas informou, por meio de nota, que o bloco Tomá na Banda manifestou interesse em retornar ao entorno do Centro de Convivência, mas, após diálogo e análise conjunta, foi decidido manter as apresentações no Largo do Rosário, no Centro da cidade, ainda segundo a secretaria, por se tratar de uma área mais adequada à logística do Carnaval. A nota informou também que a decisão considerou o caráter residencial do entorno do CCC, a presença de unidades hospitalares, os impactos no trânsito e a necessidade de garantir segurança, mobilidade urbana e preservação do sossego da vizinhança diante de um evento de longa duração e grande público. A secretaria destacou ainda que a impossibilidade foi comunicada com antecedência ao bloco, reafirmou o apoio à realização do evento com estrutura e segurança e ressaltou que Campinas adota uma postura responsável e planejada na organização do Carnaval, buscando conciliar tradição, diversão, segurança e sustentabilidade, além de manter diálogo permanente para avaliar futuras edições após o período carnavalesco, considerando aspectos técnicos, urbanos e culturais.
Para 2026, o tema do bloco é “Pra Todos os Ritmos”. A proposta une samba e futebol, duas paixões nacionais. “Assim como essas duas alegrias do povo brasileiro, estamos no meio desses dois acontecimentos este ano e precisamos exaltar a alegria e união em nossos corações. Há um eco, um som, um ritmo em cada coração e uma missão sobre nossa cultura popular. Esse bloco nasce de uma união dos bambas e ganha as ruas da cidade, com características próprias exuberantes, leva para ruas músicos e o povo para celebrar essa grande festa popular. O bloco é de todos e de todos os ritmos… da nossa felicidade!”, escreve a presidente do Tomá na Banda.
O desfile será no sábado, 14 de fevereiro, com concentração no Largo do Rosário. A programação começa ao meio-dia com DJ AfroChag, passa por show de Ido Luiz e Valeria Santos às 13h30, recebe Nãnãna da Mangueira às 15h, e dispara o cortejo oficial às 16h, ao som de marchinhas com a tradicional banda do bloco.
O trajeto é clássico: sai do Largo pela Francisco Glicério, desce a Conceição, vira na Irmã Serafina, passa pela Anchieta, sobe a Benjamin Constant até Glicério, retornando ao Largo. Às 19h, encerra.
Quarenta e um anos de rua. Quarenta e um anos de teimosia. Quarenta e um anos de lembrar que a cidade pertence a quem a ocupa. O Tomá na Banda não é só um bloco. É a prova viva de que, quando a inquietação encontra ritmo, o que nasce não é apenas folia: é resistência com bumbo e caixa.
Abertura – DJ AfroChag
Banda de palco – Ido Luiz e Valeria Santos
Convidada especial Nãnãna da Mangueira
Desfile oficial – Banda de Marchinhas e DJ AfroChag
Banda de Palco – Ido Luiz e Valeria Santos
Encerramento DJ AfroChag
Fim do evento
Veja a programação completa dos blocos de Carnaval de Campinas
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