Atualizada em 29 de março
Famosa, entre outros motivos, por ter confeccionado o lendário chapéu de um dos personagens mais marcantes do cinema, o Indiana Jones, a quase centenária Fábrica de Chapéus Cury, em Campinas, abre as portas ao público pela primeira vez em sua história para um evento cultural, neste fim de semana, com uma mostra de obras artísticas que tiveram a fábrica como inspiração e cenário.
A ação é uma iniciativa da cineasta Julia Zakia, da produtora de cinema e vídeo Gato do Parque. Ela é neta de Sérgio Cury Zakia, 88 anos, chapeleiro há mais de 70, sobrinho e filho de um dos fundadores da fábrica, e que trabalha na empresa até hoje.
Foi em homenagem a ele que Julia dirigiu o premiado curta-metragem de não-ficção “O chapéu do meu avô”, de 2004, obra que inspirou o grupo Lume Teatro, de Barão Geraldo, a criar o espetáculo “O que seria de nós sem as coisas que não existem”, em 2006.
Outras obras também foram produzidas na fábrica. O fotógrafo Fábio Fantazzini fez dois ensaios no local, com um intervalo de 21 anos (1991 e 2012), e há mais um curta, “Chapeleiros”, de 1983, dirigido por Adrian Cooper.
Todas as obras poderão ser conferidas no sábado (31) e no domingo (1º) na fábrica, com direito à visita guiada (apenas no domingo), uma tenda árabe com comidinhas à venda e um estande com lembrancinhas do local. Somente o espetáculo teatral terá cobrança de ingresso (confira abaixo a programação completa).
“Esta mostra conta a história da fábrica através dos sentimentos e cruzamentos possíveis que esse espaço nos oferece. Ao passar pela porta de entrada, parece que voltamos ao início do século. A cada passo, os sentidos se intensificam e parecem viajar no tempo. O cheiro é inconfundível, um cheiro de madeira úmida, de pelo e lã, cheiro de chapéu”, diz Julia Zakia.
Para o evento também foram convidados antigos funcionários da Chapéus Cury e familiares. “A fábrica faz parte da história de muita gente”, destaca Julia.
História que passa por Indiana Jones
A fábrica começou a funcionar em Campinas, no endereço onde está localizada até hoje, no bairro Guanabara, pelas mãos de Miguel Vicente Cury e seu pai Vicente Cury, que iniciaram suas atividades com uma oficina de reforma de chapéus em Mogi Mirim, e depois fixaram residência em Campinas e fundaram a pequena fábrica. Na sequência, juntaram-se a eles o cunhado e primo José Zakia e seu irmão, Salim Zakia.
Aos 88 anos, Sérgio Cury Zakia, filho de José Zakia e que ainda vive a vida de chapeleiro da fábrica onde começou a trabalhar aos 17 anos, conta que o pai sabia tudo de mecânica. “Morávamos em Itu e ele tinha uma fábrica de milho. Ele tinha domínio de mecânica e disse que seria melhor em Campinas. Tenho muito orgulho do meu pai”, revela.
A empresa foi crescendo e chegou a ter 700 funcionários e a produzir entre 2.800 e 3 mil chapéus por dia.
Um dos momentos marcantes da história do local foi no começo dos anos 80 quando o diretor de uma grande empresa de chapéus dos Estados Unidos, a Stetson, procurou os donos da Chapéus Cury para produzir um chapéu para um filme. Segundo Sérgio Zakia, o diretor da Stetson achava que ia ser uma grande produção, que a empresa americana não daria conta da demanda. “O chapéu não tinha nada demais e vimos que podíamos fazer. Entregamos 16 mil carapuças, o acabamento era feito lá e aí deram o nome. Em troca, também daríamos o nome aqui”. Assim nascia o tão famoso chapéu Indiana Jones. “Só vimos o filme depois que saiu. Na história, o Indiana Jones quase perde a mão para recuperar o chapéu”, relembra.
A Chapéus Cury passou a ser a fabricante exclusiva do chapéu “Indiana Jones” no Brasil (com o acabamento também feito pela fábrica) e vendeu muito com a novidade. A empresa de Campinas também abasteceu a Rede Globo em suas novelas, como “Rei do Gado”, e minisséries. A dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó e o cantor Sérgio Reis também usam os chapéus Cury. “Eles vinham sempre aqui na fábrica”, comenta Sr. Sérgio.
Hoje, com a falta no mercado da principal matéria-prima para a confecção do acessório, o pelo de coelho, a produção diária está em torno de mil chapéus por dia. “Os áureos tempos foram de 1940 até há cinco anos, quando os chineses começaram a comprar toda a pele do mercado. O coelho é criado só na Europa e toda a matéria-prima é importada”, explica Sérgio Zakia. Mas, segundo ele, tanto a moda quanto a produção de matéria-prima “tem uma tendência de voltar”.
E ele avisa que, mesmo com pouca produção atualmente, a fábrica pode ser visitada a qualquer momento por quem se interessar por conhecer a história do local.
Confira a programação da “Mostra de arte chapeleira”:
31/03
15h – Exposição fotográfica de Fabio Fantazzini
16h, 17h e 18h – Exibição dos documentários: “O chapéu do meu avô” (28 min.), de Julia Zakia – a passagem do tempo, os sentimentos e sutilezas familiares e relações construídas na antiga fábrica de chapéus; e “Chapeleiros” (24 min.), de Adrian Cooper – reflexão sobre a produção industrial e opressiva por meio dos gestos e da ação cotidiana dos operários;
20h – Espetáculo “O que seria de nós sem as coisas que não existem”, do LUME Teatro – Três chapeleiros-cientistas aposentados se reúnem na madrugada silenciosa de uma antiga fábrica com o objetivo de construir o “chapéu perfeito”, ajudados por um jovem aprendiz.
01/04
15h – Exposição fotográfica de Fábio Fantazzini e visita guiada ao interior da fábrica com os chapeleiros Gege e Lero;
16h, 17h e 18h – Exibição dos documentários “O chapéu do meu avô”, de Julia Zakia, e “Chapeleiros”, de Adrian Cooper;
20h – Espetáculo “O que seria de nós sem as coisas que não existem”, do LUME Teatro.
Local: Fábrica de Chapéus Cury. Rua Barão Geraldo de Resende, 142, Jardim Guanabara, Campinas
Ingressos: a entrada é gratuita para a exibição dos curtas, exposição fotográfica e visita. Para o espetáculo, os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia). Já estão à venda nos seguintes locais:
Sede do Lume Teatro. Rua Carlos Diniz Leitão, 150, Barão Geraldo – (19) 3289-9869
La Casina – Rua Antônio Lapa, 891, Cambuí – (19) 3252-6777
Banca Central: Avenida Santa Isabel, 20, Barão Geraldo
Newsletter:
© 2010-2026 Todos os direitos reservados - por Ideia74