Acredito que a beleza de um festival tão vasto de opções está na oportunidade de assistir produções pouco acessíveis para o cinema comercial brasileiro e as surpresas que você pode encontrar ao iniciar a sessão. O quão enriquecedor a experiência de observar a cultura de um país distante através da arte projetada na grande tela pode se tornar. É aprendizado, respeito e admiração.
A edição deste ano, comparada com a do ano passado, ao meu ver, trouxe um número maior de obras relevantes dentro e fora do nosso país. Isto se dá na listagem de filmes e os artistas representados por elas. O Brasil veio com um caminhão cheio de variedades, com destaque para o não tão falado cinema mineiro, um reduto histórico artístico que conta com diretores e atores muito promissores. Hollywood veio representada pelo artista que assinou o poster oficial da Mostra. James Gray trouxe seu mais novo filme, “Tigre de Papel”, além de outras produções de sua filmografia. A Europa traz uma quantidade muito variada de filmes, que abrangem todo o seu território. O continente africano trouxe sua força em “Variações de um Tema” e “A Casa do Vento”. E a Ásia, com autores renomados como Hamaguchi, Sang-soo e Kurosawa.
O CINEMA DA PROSA E DO CAFEZINHO
Em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, acompanhamos o casal Gilberto e Jacira e a ternura que aflora nas situações simples do cotidiano. Toda beleza e graça de duas pessoas que se completam. Feitos um para o outro. Ao voltar de uma emergência hospitalar, a dor de Jacira impacta na percepção de realidade de Gilberto, que se sente desorientado, em um mundo que não responde a lógica e onde todos parecem conviver normalmente com isso, menos ele. Uma junção muito bem conduzida entre o realismo e a fantasia.
“Vicentina Pede Desculpas” chegou como destaque no festival, vindo de premiações e uma disputa para representar o Brasil no Oscar (esta responsabilidade ficou designada para “Feito Pipa”, filme com Lázaro Ramos, que também marcou presença na Mostra). Vicentina sofre com a morte do filho Wesley, motorista de ônibus, em um acidente no trabalho. Sentindo-se responsável por ele, a mãe vai atrás das famílias que também sofreram uma perda no acidente para pedir desculpas. Uma jornada sensível e marcante na vida da personagem. O peso de suas ações é traduzido muito bem na dificuldade com que se locomove entre as idas e vindas pela cidade. Cada encontro de Vicentina reflete nas percepções ao ser apresentada por visões diferentes de cada indivíduo.
CINEMA POLONÊS
“O Que Pertence aos Outros” foi um dos achados dessa edição. A trama segue Kasia, uma mulher que sobrevive de furtos em apartamentos para conseguir a grana do dia seguinte. Em uma das casas ela se depara com o corpo de um homem falecido. Interessada em saber quem é e também em alguma oportunidade financeira da situação, ela vai atras de conhecidos e familiares para tentar conseguir a liberação do seguro de vida se passando pela atual companheira do rapaz. A trama faz essa diferenciação entre o material e o sentimental de forma bem feita. Semelhante a Vicentina Pede Desculpas, aqui a protagonista vai passando a acreditar mais em sua mentira ao conhecer pouco a pouco a história daquele homem e se importar com ele e a família.
O CARDÁPIO DE ALTO NÍVEL DO ORIENTE
Possivelmente, o grande destaque deste ano vai para a leva incrível de obras asiáticas trazidas ao Brasil. Logo de cara, dois dos melhores diretores contemporâneos. Hong Sang-soo e o esmero do seu minimalismo cinematográfico que se aprimora filme após filme. Este ano foram dois: “Onde Repousar Meus Olhos” e “O Dia em que Ela Volta”. Muitos o criticam por se repetir em todas as suas produções, porém o que há no cinema do sul-coreano é o refinamento técnico e estético ao colocar em cena situações simplórias entre o encontro de pessoas e a riqueza dos diálogos. Seria como se sentir íntimo dos personagens. Tão imerso que possivelmente se esqueça que está em frente a uma ficção. É o cinema puro.
Kiyoshi Kurosawa é outro nome. Dotado de uma maestria no suspense e terror na atmosfera de suas tramas, trouxe “O Prisioneiro e o Samurai”, que retoma a era dos shogunatos no Japão para criar uma história investigativa de assassinatos, trabalhando sempre em pequenos espaços afim de brincar com ângulos e posicionamentos de câmera para criar tensão. Excelente!
E por fim, o vencedor do Prêmio do Público da edição. “O Sentido da Vida”, de Ryusuke Hamaguchi, conta a aproximação de Marie, diretora de asilo e Mari, dramaturga em estado terminal de câncer. As duas criam uma conexão muito forte através das dores e a procura dos momentos bons da vida, acompanhadas por pessoas especiais. Uma história muito sensível e lindamente contada pelos longos planos de Hamaguchi, como quem as observa com beleza e precisão.
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