Fim dos Créditos

“Phoenix” | Das cinzas e memórias, um novo começo

por João Felipe
Publicado em 11 de setembro de 2026

Reconstrução…

Palavra que melhor se adequa a “Phoenix”. Ao mesmo tempo vale para o cenário base de uma Alemanha pós 2ª Guerra Mundial, tema ao qual Petzold parece muito interessado em inserir e/ou extrair histórias, quanto para a esfera mais pessoal do filme sob a ótica da protagonista Nelly. Ambos se complementam, demonstram suas similaridades nesse estado de desorientação social e a busca de uma nova compreensão do eu.

Na esfera maior, as consequências devastadoras do nazismo para a sua própria nação. A dor e a ferida do povo judeu. A devastação é retratada pelo diretor ao voltar os olhos para as ruas. A noite toma uma proporção de medo e ruína através dos destroços, vielas escuras e locais rodeados por figuras desgostosas. Do que restou, apenas memórias passadas servem aos sobreviventes.

Na esfera intimista do filme, Nelly, que a muitos era dada como morta, passa por uma cirurgia de reconstrução facial após o período nos campos de concentração. Ao voltar para Berlim, a moça ganha uma nova vida, uma reinserção na sociedade. A oportunidade de reviver o que também lhe restou das memórias, dos momentos e das pessoas.

Não somente trabalhar as duas camadas, Petzold aborda a transformação de um todo, partindo de uma história específica para abordar a morte, mas sobretudo a reconstrução de uma nova identidade. O país e a sociedade passam pelo processo de luto. A tristeza, melancolia, desesperança. Nelly toma um outro caminho ao iniciar a busca por seu marido. Deseja pular para o amor, felicidade, esperança. Porém, ao ser negada pelo mesmo, há nesta situação uma rejeição por parte dele da própria identidade de Nelly. O que está sendo dispensado é a sua face, suas características físicas, o seu eu. A partir deste ponto, ela começa sua reconstrução. De enxergar a si, entender quem é, o que a constitui, as qualidades e os defeitos, um novo ser, mas ainda é Nelly.

O autor brilha em evidenciar as cenas em que ela e Johannes, o marido, estão em diálogo. É até uma brincadeira do próprio em propor um plano onde a moça precisa se disfarçar dela mesma. Diria uma sacada um tanto quanto genial. Até porque, de que melhor maneira se entender, do que viver você mesmo em um papel, tal qual um filme. Somente o cinema para tal.

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