Por Wanderley Garcia
No Sebo Casarão, há 20 anos aberto, Seu Luís guarda entre os livros peças que Beta Fritzke diz não existirem nem em museu — “esse lampião aqui é da Primeira Guerra Mundial”, mostra ela em um dos vídeos que gravou por ali. Poucas quadras adiante, no Paraíso das Borrachas, loja que já passa dos 56 anos e segue nas mãos de Virgínia e Cleire desde que foi aberta em 1969, o que chama atenção de Beta é a memória afetiva que o comércio carrega: “vêm pessoas adultas aqui e falam assim: ‘Nossa, eu vim aqui com o meu pai, com o meu avô'”. No Mercado Campineiro, na Barão de Jaguara, o RIC Center completa 13 anos como a primeira loja de celulares do local, tocada por Seu Rubens — “é aquele tipo de lugar que salva a gente mais vezes do que imaginamos”, diz ela. E na Original Tapioca, comandada por Isa e sua família, o convite é direto: “vem conhecer a original tapioca, trocar uma ideia com a Isa, com a mãe dela, que é todo mundo muito querido”.

Foto – crédito: @paposdebeta, reprodução
Na Praça Bento Quirino, a banca Paulista carrega uma história que atravessa gerações dentro de uma mesma família. Adquirida em 1975 pelo pai de dona Regina, o pequeno comércio a viu começar a trabalhar ali ainda aos 11 anos, ao lado dele. Ela cresceu, estudou, namorou, casou e teve a filha — e, após a morte do pai, em 2002, seguiu à frente do negócio. Hoje, quem também trabalha ali é a filha de Regina, já casada e mãe, com os próprios filhos frequentando o local. “São três gerações, mas vai pra quarta”, resume dona Regina, referindo-se aos netos de seis anos que já acompanham o dia a dia da família na banca.
Documentos guardados por ela — como um registro de autorização de 1999 para alteração da metragem do ponto — reforçam a longevidade do negócio, que ela reivindica como parte do patrimônio da cidade. À incerteza que ronda o futuro das bancas do centro, ela responde com um pedido direto: “deixem a gente trabalhar… não é só eu, todas as bancas do centro. A gente precisa. Deixa a gente trabalhar”.
São histórias como essas que Beta Fritzke, hoje à frente do projeto Papos de Beta, tem levado ao público nos últimos meses: um retrato do Centro de Campinas como um lugar vivo, plural e cheio de gente que resiste com orgulho no mesmo endereço há décadas. No Bazar da Basílica do Carmo, ela mostra que essa vida também tem um lado mais leve e acessível, ao garimpar roupas de marcas conhecidas, como Zara, em meio a peças para ocasiões sazonais: “esse aqui é um short rosa pink que eu adorei. Vai pra casa comigo”.
O trabalho de Beta não se limita a apontar bons endereços. Ela também tenta, na prática, tornar o centro mais humano. É o caso do projeto “Comércio Amigo da Família”, construído em parceria com lojistas como Adriana, da Rua José Paulino, que sinaliza estabelecimentos onde qualquer pessoa pode “parar um pouquinho, tomar uma água, respirar ou até fazer um xixi rápido”. “Aos poucos a gente vai deixando a região mais humana, mais acolhedora e melhor pra todo mundo”, resume Beta. A realidade, porém, não deixa de aparecer nesses relatos: no mesmo áudio, Adriana descreve o medo que também faz parte do dia a dia do comércio local: “esses dias… teve roubo com faca, inclusive… sumiu o cliente, né? No dia não vem ninguém”.

Foto – crédito: @paposdebeta, reprodução
Esse é, de certa forma, o equilíbrio que Beta busca transmitir: reconhecer as dificuldades sem deixar que elas apaguem o que ainda pulsa no centro. Ao caminhar pelas ruas, ela também repara no potencial arquitetônico da região, ainda que parte dos prédios históricos esteja com a fachada desgastada pelo tempo: “tenho certeza que um processo de restauração nesses prédios traria uma vida muito boa pra cidade… que a gente consiga ser uma cidade tão linda, que as pessoas queiram nos visitar”. Entre as expectativas concretas de melhora, está a inauguração do Palácio da Cidade, no antigo Palácio da Justiça: “a gente do comércio tá esperando ansiosamente, viu, a inauguração desse palácio. Nossa esperança é que melhore o fluxo aqui”.
A poucos passos do futuro Palácio da Cidade, na Rua José Paulino, funciona há 42 anos o Café Pão de Queijo Mineiro. O negócio soma quase 50 anos de história em Campinas ao todo, tendo funcionado em outro ponto antes de se instalar no endereço atual. À frente do balcão, Edina explica o motivo da fama do lugar entre quem circula pelo Centro: os salgados são feitos ali mesmo, todos os dias. “Temperinho da casa”, resume ela, “temperinho do mineiro mesmo”. Beta não resistiu à prova: experimentou o cafezinho coado, uma torta de frango com palmito e um pedaço do bolo de queijo da casa, que, segundo ela, lembrou o bolo de queijo alemão de sua infância.
Essa forma de olhar para o centro — de garimpo, de valorização do que resiste — nasceu de uma experiência pessoal difícil. Aos 30 anos, Beta era dona de uma loja de suplementos alimentares na região central e viveu o desgaste que muitos comerciantes locais enfrentam. “As contas não fechavam e a gente já tinha feito tudo que a gente podia fazer como loja, como comércio, para resolver as nossas questões”, conta ela, que chegou a investir em detalhes como aromaterapia e produtos diferenciados para atrair clientes. Um episódio específico — encontrar a fachada da própria loja suja certa manhã — a levou a gravar um desabafo que viralizou e, pouco tempo depois, ao fechamento do negócio.

Foto – crédito: @paposdebeta, reprodução
Foi esse momento de perda, no entanto, que a levou a decidir usar a visibilidade conquistada de outra forma. “Eu me senti impelida a fazer alguma coisa de bom com a voz e a luz que as pessoas me deram”, explica. Em vez de insistir apenas na denúncia, Beta optou por “dividir o holofote e o megafone” que ganhou com os pequenos comerciantes que seguem resistindo, e os vídeos sobre a região se tornaram, com o tempo, também uma nova forma de sustento: “os vídeos sobre a região de Campinas se tornaram minha fonte de renda também. Então, hoje eu tenho gravado também outros vídeos como profissão”.
No aniversário de 252 anos de Campinas, o trabalho de Beta Fritzke funciona como um lembrete de que o Centro da cidade, apesar dos desafios reais que ainda enfrenta, segue guardando histórias de décadas, gente querida, achados inesperados e razões concretas para acreditar em dias melhores — como a expectativa em torno do Palácio da Cidade, ou o sonho de ver os prédios históricos da região restaurados e a cidade novamente “tão linda, que as pessoas queiram nos visitar”.
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