Fim dos Créditos

“A Mulher Sem Cabeça” | O inconsciente e a culpa

por João Felipe
Publicado em 8 de maio de 2026

A riqueza visual do close-up, já muito destacado em textos e ensaios de grandes diretores e críticos cinematográficos, permite ao autor usufruir das mais variadas manipulações de simbolismos e/ou significados que irão atingir quem as observa. Lhe permite destacar, reforçar, desviar a atenção e até premeditar uma ação ou objeto que será de suma importância no futuro da trama. Esta técnica surgiu ainda cedo na história do cinema, em um momento onde se debatia o poder da montagem e a ressignificação das imagens por meio da escolha do que mostrar, como mostrar e em que ordem mostrar.

Em cima deste recurso, a diretora argentina Lucrecia Martel se distingue dos seus dois primeiros longas, “O Pântano” (2001) e “A Menina Santa” (2004), iniciando a história de “A Mulher Sem Cabeça” com Verô, que dirige seu carro na volta de uma viagem. Acompanhamos estáticos na visão do passageiro, quando acidentalmente atropela o que, para nós, nunca está claro, pois o tempo inteiro estamos fixo em seu perfil, portanto vemos como ela reage a tudo. O poder desta sequência está tanto na sua reação quanto no que não podemos ver, ou seja, o que está fora de quadro. É o que irá atormentar a mulher dali em diante, e o que não nos será revelado. A culpa como força motriz irá desencadear na vida de Veronica, lhe afetando nas relações com família, amigos e trabalho.

Após o acontecido, veremos a moça como um fantasma em quadro. Fisicamente está ali, por ora de costas na altura da nuca, outras vezes de lado, observando a movimentação das pessoas. É extraída de cena por um close-up, enquanto a ação ocorre em segundo plano, ou a própria irá se encontrar neste segundo plano, enquanto os outros a escondem em cena. Torna-se um elemento externo a ação da história, como se nós, espectadores, estivéssemos vendo a mulher e ao que sua mente externaliza, portanto o seu ponto de vista.

Veronica é um ser fora da realidade, devorada pelo sentimento de culpa do acidente e principalmente por não ter prestado socorro. Seria um cachorro? Uma criança? Martel sugestiona tudo visualmente e intencionalmente deixa lacunas para dúvidas, pois entende que é aí onde os elementos criados pela protagonista irão se misturar com as situações no decorrer dos seus dias seguintes. Ela praticamente se esquece de como é a sua vida. Esquece da família, da filha, nomes, rostos, até mesmo de sua profissão. Ao chegar no trabalho, acredita ser mais uma paciente. Até recebe dos “verdadeiros” pacientes um certo sorriso esquisito. São situações típicas do seu dia a dia que agora não parecem ter discernimento em seu raciocínio, pois algo maior a aflige.

Ter uma semelhança com o cinema de David Lynch não é à toa. Lucrecia busca por mostrar o subconsciente de sua personagem, ainda que bem menos surrealista, como Lynch fez durante sua carreira. Até a troca da cor do cabelo é uma certa referência.

Ao mesmo tempo que se difere dos seus trabalhos anteriores, traz consigo aqui neste longa esta visão crítica da classe média argentina ao léu, casando até de maneira mais cômica com essa proposta. Ainda trabalha sobre esta ótica da desorientação social, junta com o marasmo do cotidiano que é muito bem encenado em “O Pântano”, especialmente nos diálogos largados sobre assuntos sem tanta importância do dia a dia.

Para mim, aqui a diretora arrisca uma proposta diferente do que já havia feito, e acerta em cheio ao apostar em um recurso que muitas vezes carrega o sinônimo de destaque, só que desta vez conseguindo ao mesmo tempo remover o corpo físico do ser humano e dar espaço ao inconsciente.

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