O envelope foi aberto. O nome lido foi outro. Mas quando as luzes do Dolby Theatre se apagaram na noite de domingo, 15 de março, a pergunta que ecoou nas redações de Londres, Nova York e Paris não foi “quem ganhou?” — foi “como Wagner Moura saiu dali de mãos vazias?”
O Brasil não levou estatuetas no Oscar 2026. Mas saiu com algo que nenhum troféu fabrica: o reconhecimento, unânime e contundente, de que seu cinema chegou ao topo do mundo. E que a ausência de prêmios diz mais sobre os limites da Academia do que sobre a qualidade do que foi apresentado.
O crítico Owen Myers, do The Guardian, não foi gentil com o resultado. Em sua análise pós-cerimônia, ele utilizou o termo “short shrift” — que pode ser traduzido como desdém ou pouca importância — para descrever a derrota de Wagner Moura na categoria de Melhor Ator. Para Myers, a “atuação poderosa” do ator baiano como um ex-professor cansado do mundo vivendo sob uma ditadura merecia dominar a categoria — e o faria, argumentou, “em qualquer outro ano”.
O crítico Peter Bradshaw, também do Guardian, foi além. Não apenas defendeu Moura como o ator mais merecedor da noite, mas afirmou que confiná-lo à categoria de Melhor Filme Internacional era “pouco” para a sofisticação de O Agente Secreto — obra que, na sua avaliação, deveria ter vencido o prêmio principal de Melhor Filme. O The New York Times seguiu na mesma direção, apontando o filme de Kleber Mendonça Filho como o que “todos deveriam ver”, independentemente de resultados ou favoritismos.
A palavra “esnobado” circulou livremente pela imprensa anglófona. E não é uma palavra que jornalistas de cinema usam levianamente.
No tapete vermelho, antes do resultado, Wagner Moura já carregava uma leveza que dizia tudo. “Se perder, a gente chegou a um lugar muito bonito, muito legal”, declarou. Ao lado de Kleber, definiu a presença brasileira como “um grande dia no Brasil”.
Kleber Mendonça Filho havia descrito o clima no dia do anúncio das indicações com uma analogia que todo torcedor entende: “Senti uma atmosfera de Copa do Mundo… quando foi mencionado O Agente Secreto a primeira vez, houve uma sensação de gol.” O filme, ambientado no Recife de 1977, foi escrito com Wagner Moura em mente desde o início — e a indicação do ator, primeira de um brasileiro na história do Oscar de Melhor Ator, foi celebrada pelo diretor como um reflexo das “caras do Brasil” que o elenco de mais de 60 personagens representa.
Para Moura, havia um significado extra em estar ali por um filme em sua língua materna. “Fico bem feliz de ser considerado… Mas por esse, por falar em português… É alegria dobrada!” — uma frase que resume, com elegância, o que estava em jogo além da estatueta.
Para o leitor que acompanhou a temporada e não entende como o Brasil, favorito em tantas premiações, saiu sem nada em Melhor Filme Internacional, a resposta está em um fenômeno que analistas chamam de “bloco de votação europeu”.
A Academia tem hoje mais de 10 mil membros, espalhados por dezenas de países. E há uma tendência estatística bem documentada: votantes europeus tendem a convergir em produções do continente. Valor Sentimental, da Noruega, chegou ao Oscar com 9 indicações totais — incluindo Direção e Roteiro —, o que sinaliza apoio transversal de vários ramos técnicos da Academia. O Brasil concentrou suas forças em quatro categorias.
Esse volume maior de indicações não é apenas um número: é uma base de apoio mais ampla que facilita a vitória na rodada final de votação. A derrota no BAFTA — o Oscar britânico, onde a Noruega também venceu — foi interpretada pelos analistas como o golpe final nas pretensões brasileiras, já que historicamente o vencedor britânico de Melhor Filme em Língua Não Inglesa tende a repetir o feito em Los Angeles.
O Guardian foi direto: a vitória norueguesa foi a escolha do filme “menos político” entre os cinco indicados internacionais, numa Academia que, em 2026, evitou premiar obras que tocassem em feridas abertas de ditaduras ou conflitos recentes.
Fora da disputa competitiva, a noite teve seus momentos de leveza e símbolo. A atriz brasileira Alice Carvalho chamou atenção com um broche que rapidamente virou tema nas redes e foi destacado pela VEJA como um dos pontos altos de estilo da noite — um gesto pequeno, mas carregado de identidade cultural. O adereço é um mapa “invertido” da América Latina (o sul para cima) com inscrição no centro “Abya Yala”, uma expressão da língua kuna, originária do Panamá, que pode ser traduzido como “terra viva”, “terra que floresce” ou “terra madura”.
O alívio cômico ficou por conta de Anne Hathaway e Anna Wintour, que subiram ao palco para recriar uma interação clássica de O Diabo Veste Prada — momento que a imprensa descreveu como o respiro necessário numa cerimônia marcada por um tom mais sombrio que o habitual.
E havia um subtexto político atravessando toda a noite: a resistência contra a Inteligência Artificial. O apresentador Will Arnett deu o tom ao defender a animação como “uma forma de arte que precisa ser protegida” e não apenas um “prompt”. A vitória de “Frankenstein” em Maquiagem foi lida como declaração de princípios — o vencedor Jordan Samuel fez questão de agradecer aos “profissionais de próteses e maquiagem pelo trabalho árduo”, numa resposta direta à capacidade de modelos de IA de gerarem visuais sem mão de obra humana.
Nesse contexto, a fotografia artesanal de Adolpho Veloso em “Sonhos de Trem” — 99% luz natural, cenas noturnas iluminadas apenas com fogo e velas — foi amplamente celebrada, mesmo que a estatueta tenha ido para Autumn Durald Arkapaw (“Pecadores”), que fez história como a primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Fotografia em 98 anos de premiação.
A derrota tem um paradoxo: ela pode ter feito mais pelo futuro de Wagner Moura do que uma vitória teria feito.
A análise pós-Oscar da BBC e do Guardian é clara: o “snub” criou um capital político e artístico imenso. Ser o “Should Win” — o que deveria ter vencido — na avaliação dos críticos mais influentes de Londres e Nova York posiciona Moura não apenas como um ator internacional respeitado, mas como um A-lister cujos próximos projetos serão acompanhados com lupa pela indústria. A começar pelo novo suspense de M. Night Shyamalan, onde ele já está confirmado.
Falar português no tapete vermelho do Oscar, como ato de resistência e identidade, virou referência. A atriz irlandesa Jessie Buckley, ao vencer Melhor Atriz por “Hamnet”, encerrou seu discurso com uma mensagem em gaélico — um eco direto da tendência que o Brasil ajudou a consolidar nesta edição.
O Brasil não perdeu o Oscar 2026. O Brasil mostrou ao mundo que chegou para ficar.
Melhor Filme — “Uma Batalha Após a Outra” (dir. Paul Thomas Anderson, 6 estatuetas) Disponível na Max.
Melhor Ator — “Pecadores” (Michael B. Jordan) Disponível na Max.
Melhor Atriz — “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” (Jessie Buckley) Em cartaz nos cinemas de Campinas — compre seu ingresso aqui — e disponível para aluguel no Prime Video.
“O Agente Secreto” 🇧🇷 — ainda em cartaz nos cinemas de Campinas — compre seu ingresso aqui — e disponível na Netflix.
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