Neste Dia Internacional da Mulher, plantado no coração de uma época em que emergem tantas urgências quanto à lida com o feminino e o masculino, reelaboro algumas reflexões e escrevo este artigo principalmente pra homens, começando por dizer que reconheço o machismo estrutural em minhas entranhas, mesmo que já um pouco desconstruído, e o designo como uma doença moral e mental de nossa sociedade e nosso tempo.
O machismo, que muitas vezes é sujeito praticarmos em gestos, atos ou piadas, expressa um senso de orgulho masculino exagerado, focado numa ideação de virilidade e autossuficiência que parece acreditar na inferioridade da mulher, e porta a ideia de que o homem, em uma relação e em tudo na vida, é o líder superior da mulher, que lhe deve submissão intelectual e sexual. Pra provar isso, o macho faz uso da violência, recorrentemente, transmutando frustração em ódio contra as mulheres.
A disseminação da nossa pretensa “superioridade masculina” vem de longe, e tem estofo intelectual e filosófico. Aristóteles, já antes de Cristo (384-322 a.C.), argumentava que a mulher era um macho malformado, carente de racionalidade, assim como Kant (1724-1804), que achava faltar às mulheres a razão profunda. Schopenhauer (1788-1860) descrevia as mulheres como limitadas e fúteis. Nietzsche (1844-1900) depreciou a emancipação feminina, argumentando que mulheres deviam ficar em casa, na mesma linha de Rousseau (1712-1778), que propôs uma educação diferenciada, que preparasse a mulher apenas pra servir ao homem e família.
O nome disso é misoginia, e a misoginia é organizada em rede virtual e física. A “machoesfera” é constituída por homens críticos à igualdade de gênero, que defendem uma masculinidade dominante na sociedade, baseados na ideia de que eles “sabem o que acontece no mundo”. E “o que acontece no mundo”, segundo eles, é que as mulheres são aproveitadoras e manipuladoras, e por isso devem ser colocadas em seu “devido lugar” – um lugar de submissão ao homem. Quanto às que não se submetem, as “vagabundas e feministas”, “não merecem” fazer parte dessa sociedade ou viver nesse mundo…
Obviamente, esta é uma generalização cruel, estúpida e perigosa, uma falsa noção de verdade – mas amplamente disseminada e praticada. Por tudo isso, estamos diante de uma organização social que naturaliza falas como “não te estupro porque você é feia”, ou que acusa uma árbitra de futebol de ser incompetente simplesmente porque é mulher.
Pra psicanálise, esfera onde atuo, a misoginia é o ódio ou aversão profunda às mulheres, operando como um mecanismo de defesa contra a angústia de castração, buscando manter a ordem patriarcal e fazendo da mulher um objeto de controle. A misoginia revela um funcionamento inconsciente que busca manter a mulher submissa, utilizando a violência simbólica, psicológica e física.
O feminicídio, por isso, não é só um impulso reativo. É o ápice de uma cultura que educa homens a confundir amor com posse e dominação. Com a independência financeira da mulher, ou quando ela escolhe outra opção conjugal, homens frágeis sentem-se simbolicamente infantilizados. Antes provedores, controladores, agora se sentem dependentes ou rejeitados. Por isso insistem obsessivamente em manter os relacionamentos, já que, com a ruptura, eles se intoxicam com sua própria dor e insegurança.
Assim, a masculinidade tóxica está profundamente enraizada na construção psíquica do homem frágil, marcada por medos profundos, repressão emocional e a busca por um ideal de poder, que se sentem desprovidos de identidade ao serem abandonados. A violência que explode nessa situação camufla uma fraqueza real, acima ou abaixo do umbigo. Em casos extremos, acham melhor “eliminar a causa”. Do tipo “até que a morte nos separe.”
Por esse contexto, vivemos uma epidemia de violência contra a mulher que não pode ser relativizada, silenciada ou tratada como exceção: nos últimos anos, é expressivo o aumento de casos de feminicídio, agressões físicas e verbais, estupro individual e coletivo, assédio e importunação sexual. Junte-se a tudo isso a culpabilização da vítima, responsabilizando-a (insubmissão, provocação, insinuação…) pelo acontecido, e temos uma violência exponencial. Isso sem aprofundar na questão das estruturas sociais que barram o avanço de mulheres a posições de maior influência ou liderança na vida pública e profissional.
Tudo isso não quer dizer da minha isenção, porém. Mais que apenas portador da testosterona resolvedora de problemas, sou ainda um homem rústico… – e, algumas vezes, também – dúbio, malicioso, superficial, invasivo, egoísta… – e outras imperfeições. Podendo, claro, melhorar, e estou ampliando algumas qualidades e competências, na forma de delicadeza e sensibilidade. Mas confesso que me sinto constrangido, como homem e ser humano, com o silêncio geral masculino nos diversos contextos e situações da vida – em que poderíamos falar e nos posicionar. De alguma forma, nosso silêncio permite, naturaliza e compactua com tudo isso, banalizando e tolerando situações que deveriam indignar nosso discurso sobre respeito e igualdade.
A expressão “sexo frágil” atribuído às mulheres é, em si mesma, uma aberração da linguagem, uma ideia preconceituosa, que induz à falsa ideia de que o homem, consequentemente, é o “sexo forte”, e intelectualmente superior.
Preciso discordar disso, conforme já estou discordando, pois esse pensamento, é distorcido, fruto de um mecanismo de desunião sutilmente engendrado em mentes incautas. Como cultura, essa “verdade” sobrevive, nascemos já com ela já aí, e acreditamos que a vida é assim mesma. Basta ver quantas mulheres estão na liderança de nações, de organismos internacionais, de negócios e instituições fazendo bem às sociedades que pertencem. E, também, sustentando famílias – e talvez aqui esteja a lâmina mais ferina ao orgulho do homem contemporâneo, que o faz vítima de sua própria arrogância: dentro de sua casa, ela ser a provedora.
Pra mim, a mulher é uma das graças da vida – mesmo sabendo que ela não é santinha, perfeita, imaculada, e que, muitas, são manipuladoras, exploradoras e dissimuladas. Muitas vezes, posso dizer, fui consolado e fortalecido na minha fragilidade humana pelo colo ou pela atenção potente de uma mulher. Muitas vezes, nas formas e jeitos da presença de cada uma, eu me soube capaz de ser, mais que homem, pessoa, e pude entender e sentir a grandeza e a beleza que é esta força feminina na natureza, na cultura e na história de tudo quanto há, com sua força maternal, feminina, amorosa, sensível e profunda, força que precisamos pra transformar esse nosso mundo tão necessitado de um olhar com mais brandura e compaixão ante toda a infinita urgência que temos de humanizar nossa existência nesse planeta.
E, aí, que este 8 de março, mais que uma data que apenas relembre um acontecimento trágico fundado no abuso, na ganância, na ignorância e no ultraje, seja berço de reflexão profunda e transformadora que nos possibilite parar de reproduzir distorções que a nova era de aquário requer que sejam revolvidas, resolvidas e revolucionadas a nível individual, cultural, social e governamental. E que, com isso, todas essas “Marias” – portadoras da força de equilíbrio yin, feminino que nos liga ao ânima que nos anima, yang, sagrado princípio único que rege os mistérios de Gaia, Mãe-Terra, Mãe-Natureza… – continuem com a sua estranha mania de ter Fé na vida.
COMO LIDAR COM TUDO ISSO?
Psicanálise, terapia, autoconhecimento – algo assim. Para falar particularmente com o autor, use: 19 99760 0201 [zap] ou [email protected]
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