A Academia de cinema americana nomeou os indicados ao Oscar 2026 na manhã desta quinta-feira (22). Nomes já previsíveis como Pecadores, Uma Batalha Após a Outra, Marty Supreme e Hamnet cumpriram seu papel em algumas categorias. Destaque para o longa dirigido por Ryan Coogler e protagonizado por Michael B. Jordan, quebrando o recorde com 16 indicações.
Porém, o que se esperava mesmo é ver o Brasil representado pelo segundo ano consecutivo com O Agente Secreto. Presente na disputa de Melhor Filme e Melhor Filme Internacional, além de Wagner Moura em seu papel de Marcelo/Armando e um espaço na mais nova categoria de Direção de Elenco.
Bom, dois anos seguidos passando pelo tapete vermelho, o glamour e a fama, um filme nacional na boca dos maiores nomes da indústria hollywoodiana, já podemos afirmar que o cinema brasileiro está no ápice, um verdadeiro sucesso… Então, não é bem assim.
Antes de tudo, não farei o papel do chato que diminui os méritos de um filme produzido em nosso país, por algum tipo de protesto ou coisa parecida. Pelo contrário, acredito que mais do que Ainda Estou Aqui, o filme de Kleber Mendonça Filho usufrui das imagens para falar sobre o passado e o peso de carregar os traumas geração após geração. Suas diferentes facetas, antagonistas, lutas, tudo que compõe uma época extremamente negativa em nossa história, sendo registrada em nossa frente para que estes fatos não se percam com o tempo. É uma presença “justa”, já me redimindo do termo usado, pois o Oscar sempre teve o seu viés mercadológico como principal interesse, só então se discute a obra em si. E quando se discute.
O que não se pode deixar levar dentro desse cenário, é utilizar-se destes exemplos para mascarar a realidade da indústria cinematográfica e cultural do nosso país. Ainda Estou Aqui e Agente Secreto podem ser definidos com o que chamamos de “cinema-evento”, algo que não acontece sempre pois é preciso de alguns fatores como a expectativa prévia, o apelo sobre as estrelas do filme, um grande investimento em marketing e por aí vai. Uma indústria não se sustenta pela espera de um filme-evento todo ano, que ganhará premiações pelo mundo e garantir sua cadeira na noite de premiação do Oscar.
A precarização da janela de exibição de filmes brasileiros em nosso próprio território talvez seja um dos principais fatores para o resultado que temos hoje. A acessibilidade é fundamental para que as pessoas tenham a oportunidade do acesso ao filme, criem um interesse e costume de experimentar gêneros, estilos e o hábito de consumir um filme produzido pelo Brasil, seja ele nas salas de cinema, que priorizam os produtos comerciais enlatados americanos, seja na praticidade de um serviço de streaming, que atualmente lidera a prática de instantaneidade de lançamentos, onde uma vez que uma produção é liberada para as pessoas, seu tempo de vida é extremamente curto, pois um novo lançamento já está à espreita.
Ainda sobre as redes multiplex de cinema, há o fato de que estas precisam se manter financeiramente, visto que a concorrência dos streamings parece, a priori, ser mais benéfica, portanto, a prioridade sobre aquele produto que terá um maior retorno lucrativo. Ao mesmo tempo, como podemos observar nesses últimos anos, o interesse pelo público sobre filmes nacionais só vem aumentado, o que acredito ser também um saldo positivo da visibilidade que festivais de cinema e premiações americanas oferecem. Especialmente se uma vitória cair em nosso colo novamente.
Existe todo um debate muito mais profundo do que Ainda Estou Aqui, Agente Secreto e Oscar em relação as nossas produções. É preciso espaço, investimento, incentivo, projetos de leis que fomentem o interesse, que façam esta indústria girar e trazer mais e mais projetos. O cinema é arte, é ferramenta, é cultura e principalmente o poder das imagens em tela, que trazem consigo a carga daquilo que representa.
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