Cinema

“Tick, Tick…Boom!” e a ‘bomba’ ao fazer 30 anos

14 de março de 2022

(*) Por Rebecca Ferreira Carvalho

O musical “Tick, Tick…Boom!” foi um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme este ano (o vencedor foi “No Ritmo do Coração”) . O ator Andrew Garfield também participou na categoria melhor ator (o prêmio ficou com Will Smith). A obra é cercada de debates importantes sobre a crise do envelhecimento, HIV/AIDS e a perseverança em seguir os sonhos.

A peça e o autor

O filme conta a caminhada do escritor de musicais Jonathan Larson ao chegar a seus 30 anos de idade. Nessa época ele ainda não tinha escrito o famoso musical “Rent “, que conta a história de um grupo de jovens estudantes, músicos, atores, muitos deles desempregados e portadores do vírus HIV nos anos 1980.

O musical é cercado de sátiras e problemas reais referentes aos aluguéis exorbitantes e a vida dos jovens. A peça foi considerada um sucesso e ficou anos em cartaz vencendo ainda o Tony Award e o Pulitzer.

Uma adaptação para o cinema foi feita em 2005 pelo diretor Chris Columbus. O filme teve seis membros do elenco original da Broadway reprisando seus papéis no cinema.

Jonathan Larson nunca viu o triunfo de sua criação, ele morreu, em 1996, na véspera da estreia do espetáculo. O compositor e dramaturgo tinha apenas 35 anos quando faleceu de aneurisma.

As implicações ao fazer 30 anos nos dias de hoje

Jonathan, então, está fazendo 30 anos. Um dos primeiros momentos do filme é dedicado as angústias e aflições referentes a esta época na vida de cada um de nós, além das pressões psicológicas e sociais.

Conseguimos captar no filme a insistência do personagem principal em fazer o que ama, apesar das rejeições e opressões do sistema econômico que tenta seduzi-lo a fazer algo simples, mas vazio para obter conforto.

No filme, Jonathan persiste em se manter “falido” contanto que possa mostrar ao mundo seu potencial. Ao mesmo tempo, em vários momentos, vemos como ele sofre e conflita, pois precisa de seu emprego na lanchonete para pagar as despesas básicas.

A história capta com maestria a angústia do personagem e a profunda ansiedade ao chegar aos 30 anos. Existe uma comparação ilusória com as conquistas que os outros da mesma idade obtiveram. É comum o jovem-adulto se sentir triste ao pensar que não “deixou um legado” nesta idade como filhos, produções, objetivos financeiros ou profissionais etc.

“Dias” (2017) estuda sobre essa crise dos 30. A autora observa como o sentimento de frustração e até de fracasso se instala nessa época devido aos anseios que os próprios sujeitos fazem em relação a autonomia financeira, o reconhecimento e a obtenção da satisfação profissional.

Se pararmos para refletir sobre os dias de hoje conseguimos observar como muitos jovens adultos entre 25 e 35 anos escolhem ficar mais tempo na casa de seus pais, devido as exorbitantes despesas financeiras que morar sozinho se traduz. Além disso, a alta demanda e exigências profissionais do mercado de trabalho fazem que com esses jovens escolham se dedicar mais tempo aos seus estudos com especializações, cursos e aperfeiçoamentos antes de morarem sozinhos.

O fato de observarmos cada vez mais jovens adultos dessa faixa etária morando com seus pais, correlaciona muito aos grandes problemas financeiros capitalistas que observamos nos dias de hoje, e por mais que esta fase seja de uma certa liberdade conquistada com empregos e profissões não conseguimos nos libertar das expectativas criadas pelas gerações anteriores.

Antes dos 40 você precisa ter adquirido sua casa, ser gerente ou diretor dentro da sua área, estar casado e com filhos. Independentemente das boas experiências que o sujeito possa ter vivenciado e que gerações passadas não poderiam imaginar serem possíveis, o jovem adulto ainda é bombardeado com as expectativas criadas por essas gerações anteriores.

O filme nos relembra pontos essências sobre as responsabilidades, pressões e angústias dos sujeitos que estão nesta fase. É necessário entendermos que cada geração passa por seus problemas e os enfrenta da melhor forma possível. Cada sujeito é um e não podemos comparar, afinal a construção do caminho é sempre solitária, individual e intransferível.

Assim como no filme, os sujeitos nesta fase sentem como o contar do relógio passando ‘tick, tick, tick’… A ânsia e os medos do “tempo perdido” ilusório também cerca os 30 anos.

Estamos em época da pandemia de Covid-19. Já imaginaram como os jovens adultos na casa dos 30, eu incluída, estamos nos sentindo? São dois anos de afastamento e precisamos construir nossos caminhos no meio disso.

Se você conhece alguém que esteja nesta fase entenda-o e o apoie, pois ele pode estar passando por essa crise dos 30.

Nota: 7/10

Referências:
FILME:MIRANDA, Lin-Manuel, “Tick, Tick… Boom!”. Direção: Lin-Manuel Miranda. Roteiro: Steven Levenson. Elenco: Andrew Garfield, Alexandra Shipp, Robin de Jesús, Vanessa Hudgens, Joshua Henry, Mj Rodriguez, Judith Light, Bradley Whitford (baseado em “Tick, Tick… Boom!”, de Jonathan Larson) 2021. Disponível no Netflix.

COLUMBUS, Chris. “Rent”. Direção de Chris Columbus. Roteiro: Stephen Chbosky. Atores: Anthony Rapp, Idina Menzel, Adam Pascal, Rosario Dawson, Jesse L. Martin, Wilson Jermaine Heredia, Tracie Thoms e Taye Diggs (Baseado em “Rent”, de Jonathan Larson), 2005.

LARSON, Jonatham. Obra teatro musical: “Rent”. Primeira apresentação 1996 em NEderlander Theatre

“DIAS”, Bruna Tokunaga “A Crise Dos 30: A Adolescência Da Vida Adulta” Integrare, 2017.

Rebecca é psicóloga com especialização em “Psicanálise e contos de fadas”. É mestranda em psicologia pela PUC-Campinas. Apaixonada por filmes, séries, jogos e animes. Escreve sobre como essas mídias se entrelaçam com nossa vida e psiquê.

Foto – crédito: Netflix/divulgação

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